Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

O meu sonho era ter uma irmã. Aos cinco anos, meus pais atenderam meu pedido. Tão logo ela nasceu, eu aceitei a proposta que as freiras do hospital me fizeram. Minha mãe disse que eu fiquei desesperado, semanas depois, quando vi as religiosas entrarem no portão lá de casa para fazer uma visita a ela – funcionária do hospital – e ao bebê: “Mãe! Mãe! Rápido! Esconde a maninha que elas vieram trocar por um passarinho!”.

Adiante, quando minha irmã já circulava pela casa, eu tinha convicção que meu amigo, Vanderlei, era muito mais feliz do que eu, pois ele não tinha uma caçula para fuçar nas coisas dele.

Depois passei a achar que era bom ter uma irmã. Pois eu ganhava duas mesadas. A oficial e a outra, recebida sigilosamente: “Isso é para cuidares da tua irmã”. Mas aí eu tinha que leva-lá na aula de dança, no baile de carnaval, e noutros eventos chatos. Na prática eu ficava com quase três mesadas, pois a minha irmã sempre me cedeu boa parte do ganho dela, ou melhor, sempre me emprestou e eu nunca devolvi. Sempre fui gastador.

Na adolescência era legal, pois nas festinhas sempre apareciam as irmãs mais velhas das amigas dela; e a minha galera e eu, tínhamos a aproximação facilitada. Numa dessas, apareceu uma outra turma do bairro, com os elementos numas motos reluzentes. Como irmão mais velho, gauchito, eu “ordenei” que minha irmã os despejasse. Ela negou-se. Fomos para o tribunal superior e meu pai perguntou:

– Susana, eles são teus convidados?
– Sim, pai.
– Então eles ficam.
Me ferrei.
Numa ocasião, minha irmã começou a namorar o goleiro do nosso time. Ele foi embora e contratamos um substituto. Depois veio a informação oficial do namoro dela com o novato.
Teria ela uma queda por rapazes de mãos grandes? Seria uma preferência pelo número 1? Ela seria uma maria-luva?
Recentemente, recebi a visita da família em SC e eles foram assistir ao nosso treino. Dias depois, um colega de jogo puxou conversa:
– Marcelo, com todo o respeito, a tua namorada é bem bonita.
– Obrigado. Viste ela aonde?
– Lá no treino.
– Oh! Seu animal, aquela morena é a minha irmã.

Adivinhe, o leitor, em que posição o cara joga? Descobri que os goleiros é que ficam hipnotizados pela guria. Por isso que nosso time sempre tomava uns gols estranhos, desde a época que eu jogava na categoria infantil.
Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com