Por: Gabriela Bubniak | 11/10/2017

A lista é grande: Criminal Minds, CSI, Bones, Dexter, Hawaii 5-0, Monk, Medical Detectives… poderíamos passar um dia inteirinho citando as séries de TV que têm como foco a investigação criminal. Mas você já parou para pensar o que daquilo tudo acontece na vida real?

Essa pergunta fisgou a gente no meio de uma conversa aqui no QG, sobre um crime que aconteceu na cidade. Será que todos aqueles materiais, os aparatos e as técnicas exibidas na TV existem e são usadas pelos profissionais da criminalística?

Para descobrir, nós fomos até o Instituto Geral de Perícias (IGP) de Jaraguá do Sul, conversar com o pessoal que entende de verdade como tudo funciona na prática. Quem nos ajudou foi o responsável pelo Instituto, Eduardo Linhares, que é perito criminal.

O IGP de Jaraguá do Sul fica anexo à Delegacia Regional de Polícia Civil – Ciretran/Detran. (Foto: Divulgação)

Ele esclareceu que as séries de TV mostram algumas mentirinhas, sim, mas a maior parte é real. No fim, os procedimentos técnicos e científicos utilizados são praticamente os mesmos utilizados nos laboratórios, só que sem exageros. É o chamado “Efeito CSI”, a diferença entre a percepção do público e a realidade das coisas.

(Foto: CSI/Divulgação)

Afinal, o que é a Perícia​ ​Criminal?

A principal função da Perícia Criminal é produzir prova técnico-científica em processos criminais. Isto significa utilizar a ciência em favor da justiça, através da investigação de crimes com uso de exames e métodos cientificamente validados. Por essa atuação investigativa e técnica, a Perícia Criminal é também chamada de Polícia Científica.

O tipo de prova produzida pela Perícia Criminal, diferente da prova testemunhal, não pode sofrer mudanças no curso do processo, justamente por ser obtida através de métodos científicos.

(Foto: Divulgação/IGP Jaraguá)

O Perito Criminal utiliza as mais variadas áreas do conhecimento científico em seus exames e estudos. Sua atuação inicia na fase investigativa policial e se estende até a fase judicial dos processos, quando são apresentadas as provas em julgamento, por exemplo.

O universo de atuação desse profissional é o das Ciências Forenses, área de estudo interdisciplinar, onde se encontra a criminalística. Os conhecimentos e métodos utilizados relacionam-se às mais variadas áreas do saber científico, como biologia, a física e química.

E como​ ​funciona​ ​a​ ​Perícia​ ​Criminal​ ​em​ ​​Jaraguá?

A Perícia Criminal em Santa Catarina é desvinculada da Polícia Civil desde 2005, quando foi criado o Instituto Geral de Perícias. Essa autonomia técnica e administrativa é uma prerrogativa da Associação Brasileira de Criminalística e recomendação da ONU, pois os exames periciais devem ser isentos nos processos, buscando sempre a verdade dos fatos. Essa isenção e imparcialidade são exigidos em razão da Perícia Oficial de Natureza Criminal ser definida como uma atividade auxiliar da justiça.

Em Jaraguá do Sul e região quem é responsável pelos exames periciais de natureza criminal é o 13º Núcleo Regional de Perícias do IGP, que conta com três institutos: Instituto de Criminalística, Instituto Médico Legal (IML) e Instituto de Identificação.

Nesse núcleo trabalham um Perito Criminal, três Peritos Médicos Legistas, dois Auxiliares Médicos Legais e oito Auxiliares Criminalísticos, que dividem suas funções nos três Institutos.

Perícia não é só sangue e exames de DNA

Não é só dos exames em locais de crime que vive a Perícia Criminal, existem diversas outras áreas de atuação do perito. Exemplos: documentoscopia (exames relacionados a documentos falsos ou não), a balística (exames relacionados a armas de fogo), informática forense (exames em dispositivos eletrônicos, como computadores e celulares), merceologia (exames em materiais falsificados), exames em veículos adulterados, exames em locais de explosões, crimes ambientais, e outras.

Todas essas as atividades técnico-científicas são regidas por padrões metodológicos criminalísticos internacionais.

Mas e onde entra o trabalho do médico legista?

O médico legista também é perito, e seu trabalho complementa aquele iniciado no local de crime. E a análise médico legal de vítimas auxilia na tipificação e qualificação dos crimes. Mas além de emitirem os famosos laudos explicando as causas de várias mortes, o médico legista é responsável por diversos trabalhos no IML, como exumação de cadáveres e exames de lesões corporais, por exemplo.

(Foto: CSI/Divulgação)

Quais​ ​tipos​ ​de​ ​exames ​são​ ​realizados​ ​aqui?

​Dentre os exames periciais realizados pelo IGP de Jaraguá do Sul, estão aqueles feitos em locais de crime, balísticos, documentoscópicos, merceológicos, de identificação veicular, etc.

(Foto: Divulgação/IGP)

Quanto aos métodos que costumamos ver na TV, são comuns – na vida real – a busca por vestígios biológicos com utilização de recursos ópticos como luzes forenses ou luminol (em locais de morte violenta) e a identificação da autoria de crimes mediante análise de DNA.

Mas é importante ressaltar que nenhum processo é tão fácil de identificar, e os resultados não saem tão rápido como nas tramas da TV.

Perito em análise a uma arma de fogo apreendida na região. (Foto: Renan Reitz/Por Acaso)

Caso solucionado!

Pra mostrar que o IGP de Jaraguá do Sul não brinca em serviço, eles nos contaram a história de um caso de homicídio (assassinato intencional ou não) que aconteceu há algum tempo aqui na cidade.

Segundo Eduardo, o caso foi solucionado com uso de luminol, através da identificação de vestígios de sangue perto do pedal de embreagem. O veículo pertencia ao suspeito, já havia sido lavado, e não apresentava marcas a olho nu.

(Foto: Divulgação/IGP)

Uma amostra de sangue foi coletada e, após extração e análise, foi identificado o perfil genético (DNA) da vítima naquele local, conectando assim o suspeito ao crime.

Muito legal, né? É o CSI da vida real, minha gente! 🙂

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BÔNUS: mito ou verdade?

Para entender melhor como as coisas funcionam na prática, montamos uma pequena listinha que vai ajudar a desmistificar algumas coisas. Confira:

1. Testes de DNA são rápidos

Mentira! Testes dessa natureza levam bastante tempo para serem conclusivos, chegando a dias ou até meses para a chegada do resultado.

2. Sangue brilha na luz ultravioleta

Não, não, não, não! Isso é mais um recurso televisivo para facilitar os enredos das histórias contadas. A luz ultravioleta pode ajudar a detectar diversos outros fluidos corporais na cena do crime, como sêmen, urina, saliva e leite materno.

“Mas e o luminol?”. Se pensou nesse produto, você está muito mais familiarizado com os recursos. O luminol faz o sangue brilhar com uma cor azulada, mas ele não é totalmente eficiente. É necessária uma escuridão quase total para isso acontecer – e o brilho dura pouco tempo.

3. O trabalho forense é pouco burocrático

Os seriados mostram os investigadores forenses com suas vidas corridas, trabalhos complexos e muitos mistérios. Porém, nenhum deles mostra a realidade: papel sobre papel, burocracia sobre burocracia e horas de investigação dentro do escritório. Toda prova coletada precisa ser selada, registrada, carimbada, avaliada e rotulada para ter algum valor. Isso requer horas e mais horas de trabalho extremamente burocrático.

4. Investigadores forenses = grandes celebridades

Ao contrário dos protagonistas das séries de investigação criminal, os profissionais forenses, como os investigadores e analistas, estão longe de serem celebridades. Na verdade eles devem ser reconhecidos como profissionais incríveis, pois entendem e atuam nas mais diversas áreas do conhecimento criminal; principalmente os que trabalham em cidades do interior, já que costumam realizar todos os tipos de perícias.

Para finalizar, ficou ainda mais uma dúvida nossa: será que o pessoal que trabalha com criminalística curte as séries de investigação criminal?

Bom, a resposta foi um NÃO, bem grande! E ainda ficamos sabendo que eles preferem ficar longe de qualquer episódio, só pra não se estressar. Hahahaha!

Pensando bem, é como se alguém fizesse uma série ou um filme retratando a sua profissão, mas acabar mostrando algo que não tem nada a ver ou é extremamente exagerado se comparado com a realidade. É compreensível! 🙂