Por: Ariston Sal Junior | 13/05/2014

Raimundos

A vida presenteou Rodolfo Abrantes, ex-líder da banda Raimundos, com “dois primos já marmanjos”, Augusto e Bessanger. O músico retribuiu o presente transformando a tarde ensolarada com os parentes no hino “Puteiro em João Pessoa”, uma das marcas do rock brasileiro dos anos 1990. A canção – “Foi num puteiro em João Pessoa, eu descobri que a vida é boa, foi minha primeira vez” – completa 20 anos nesta segunda-feira (12), data de lançamento do primeiro álbum do grupo, o homônino “Raimundos”.

O engenheiro mecânico Bessanger Abrantes, de 61 anos, o “primo safado” da letra, garante que a aventura vivida e cantada por Dudu, como carinhosamente chama Rodolfo, é quase totalmente verídica. “A música é um relato fiel do que aconteceu naquele dia. Aliás, quase fiel, porque aqueles adjetivos que ele usou para me descrever não condizem com a realidade”, contou aos risos Bessanger, que é primo legítimo do pai de Rodolfo.

O episódio que originou a canção aconteceu cerca de 5 anos antes de ela integrar o primeiro disco do Raimundos, lançado em 1994. Segundo Bessanger, em meados de 1989, o ex-vocalista da banda, na época com idade entre 15 e 16 anos, reclamava com frequência da falta de namoradas. Compadecido da situação, o primo resolveu dar um “empurrãozinho” na vida amorosa do adolescente, em uma das viagens que a família de Rodolfo fazia periodicamente a João Pessoa.

“Estávamos em uma chopperia em Tambaú, quando eu e o Augusto avisamos ao Manoel [pai de Rodolfo] que levaríamos Dudu para passear. Ele não sabia de nada, estava completamente perdido. Eu já era frequentador do Roda Viva [o puteiro em questão], sabia que lá era o local indicado para levá-lo. Quando voltamos para o bar, cerca de 2 horas depois, avisei os pais dele sobre a aventura. Manoel riu bastante, mas Jaciara [mãe de Rodolfo] me deu uma bronca daquelas”, relatou Bessanger.

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A citação dos responsáveis pela aventura erótica do adolescente rendeu o status de “lenda” aos dois primos. Bessanger revelou que seu perfil em uma rede social ficou congestionado com diversas mensagens após ter sido descoberto por uma comunidade do Raimundos na internet. “Todos queriam conversar, saber se a história era verdadeira, outros me pediam para que eu os levasse também, me chamaram até de lenda! No início, jamais imaginei que uma música da tal ‘banda de garagem’ do Dudu fosse me proporcionar essa fama”, afirmou o engenheiro mecânico.

Depois do episódio contado na música, Bessanger passou a ser tratado como o responsável pelo “rito de passagem” de Rodolfo. Ele conta que irmãos e sobrinhos o questionam sobre a possibilidade de a aventura se repetir com outros membros do família. A fama se espalhou de tal forma que Bruno Abrantes, irmão de Rodolfo, ficou muito chateado com o primo mais velho porque também não passou pelo ritual. “A história se tornou uma tradição de família”, explicou Bessanger.

Bessanger Abrantes voltou ao Roda Viva a convite do G1 para contar a história que inspirou o primeiro single do Raimundos Foto: André Resende/G1

Bessanger Abrantes voltou ao Roda Viva a convite do G1 para contar a história que inspirou o primeiro single do Raimundos
Foto: André Resende/G1

Casado há exatos 20 anos, o engenheiro mecânico garante que os dias de Roda Viva ficaram no passado. Há cerca de um ano, ele voltou de Brasília, onde vivia, para João Pessoa ao lado da esposa e da filha. Na capital federal, ficou o outro primo retratado na música, o “muito justo” Augusto Abrantes, que trabalha como professor universitário de direito.

Duas décadas depois, sobrou pouco do que foi cantado no primeiro single do Raimundos. O Roda Viva foi transformado em motel, o forró não toca mais no local, e os primos largaram as aventuras amorosas e os rituais de passagem. Mas a história de como um adolescente descobriu como “a vida é boa” em João Pessoa resistiu ao tempo.

O segundo primo “já marmanjo” e “muito justo” citado na música, Augusto hoje mora em Brasília, é formado em Direito e professor universitário. Assim como Bessanger, ele é primo do pai de Rodolfo.

Herança sertaneja
Rodolfo é brasiliense, mas seus pais são paraibanos e sertanejos. Bessanger comenta que toda a família cresceu sob uma forte cultura sertaneja, essencialmente patriarcal e machista.

“A cultura sertaneja prega essa coisa de se afirmar como ‘cabra macho’, então era comum levar seu filho, irmão ou primo que chegava à adolescência para iniciar a vida amorosa. Assim como fui criado, o pai de Rodolfo também foi, então ele [o ex-líder do Raimundos] teria que passar por esse ritual de passagem”, disse.

Via G1