Por: Anderson Kreutzfeldt | 4 anos atrás
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NOVA VIDA – Os primos Jean Piere (direita), 28 anos, e Sony Saintecy, 42 anos, aguardam a carteira de trabalho para começar a trabalhar (Foto: Eduardo Montecino)

De início a comunicação não foi fácil. A mistura de espanhol, francês e inglês e o pouco conhecimento na língua portuguesa já entregam como estão sendo os dias dos haitianos em Jaraguá do Sul. Muita mímica e paciência compõem a realidade dos estrangeiros, que vieram em busca de oportunidades.

Sem pudor, nem vergonha, o haitiano Daniel Deborne, 29 anos, se apresenta e conta sua história. A pouca intimidade com o português é uma barreira a ser quebrada. Sem pestanejar, ele busca opções para melhorar a forma de se comunicar com a nossa equipe de reportagem. Vale pegar o caderno utilizado nas aulas do Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja) e, é claro, abusar das tecnologias e facilidades da internet: a ferramenta de tradução online.

O professor Daniel está há apenas 12 dias em Jaraguá do Sul. Natural de Porto Príncipe, ele veio para o Brasil para aprender e se profissionalizar. Atualmente está morando no Centro de Resgate Social, onde recebe uma refeição, um local para dormir e ajuda para legalizar a situação. A saudade da mulher e das duas filhas é grande, mas a vontade de tê-las por perto alimenta a disposição para alcançar os objetivos. “A situação da minha família está realmente difícil no Haiti. Queria ter eles aqui comigo, mas isso vai levar algum tempo. Preciso trabalhar e juntar um dinheiro ainda”, relata. A escola onde ele trabalhava foi destruída e as marcas ainda são fortes.

Quatro anos se passaram desde o terremoto que matou 300 mil pessoas, deixou 1,5 milhão de desabrigados e causou um prejuízo bilionário. Mesmo assim o haitiano diz que os problemas ainda são muitos. “É um país muito bom, mas o governo não dá chances para você crescer. Trabalha demais e ganha muito pouco”, desabafa. A vinda para o Brasil pareceu para Daniel a esperança de um futuro melhor.

A estimativa é trazer a família para perto dele em breve e permanecer na cidade por alguns anos. Não pretende ‘fincar raízes’ no país, pois alega que sua casa é o Haiti. Aqui, ele acredita que os filhos terão melhor acesso ao ensino e qualificação profissional.

Daniel faz parte de um grupo de mais de 1,6 mil haitianos que residem em Santa Catarina. Os dados são da Polícia Federal, que relata que o número aumenta a cada mês. Em Jaraguá do Sul não há dados exatos sobre o número de imigrantes haitianos.

Atrás de parentes no Rio Grande do Sul 

Das quatro mulheres do Haiti e República Dominicana que vieram para Jaraguá do Sul em 2013, para recomeçar a vida, apenas uma permanece na cidade. Elas vieram para trabalhar no Hotel Vale das Pedras, porém, permaneceram no local por dois meses. De acordo com a representante do hotel, Nirce Liebl, três delas foram para o Rio Grande do Sul, a procura de parentes. Ela acredita que outra está na cidade, porém, saiu do hotel. Agora o estabelecimento tem outros três imigrantes contratados. Duas mulheres e um homem. Todos chegaram este ano. “Não vamos mais buscar como fizemos da primeira vez. Agora temos um contato que nos indica haitianos que queiram vir para trabalhar aqui”, conta. Os trabalhadores recebem o piso salarial, algo em torno de R$ 970, uma cesta básica e moradia. “Pelo que nós sabemos, eles trabalham aqui e mandam dinheiro para a família que continua no Haiti”, comenta.

Abrigo aos imigrantes

Os haitianos que chegam a Jaraguá do Sul sem trabalho e lugar para morar são acolhidos pelo Centro de Resgate Social no Bairro Jaraguá Esquerdo. Segundo o coordenador, Miguel Francener, no último ano já passaram 15 haitianos pelo local. Atualmente três estão abrigados na casa de passagem. Além de comida e lugar para dormir, eles recebem ajuda para fazer a documentação (CPF, RG e Carteira de Trabalho) e regularizar a situação no país. Eles ficam no local de 30 a 60 dias até que consigam se estabilizar. Durante a semana, frequentam aulas de língua portuguesa no Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja). “A gente percebe que eles são bem unidos e que realmente estão em busca de algo para melhorar a vida da família”, conta Francener. Ele diz que muitas empresas estão indo em busca dessa nova mão de obra.

Os primos Jean Rene Piere, 28 anos, e Sony Saintecy, 42 anos, estão há quase dois meses no Brasil. Eles foram recebidos no Centro de Resgate e agora já aguardam a chegada da Carteira de Trabalho para começar a trabalhar. No Haiti ambos atuavam na agricultura. Aqui ainda não sabem o ramo que vão seguir, mas têm a certeza que vão melhorar de vida e ajudar a família. “Vou esperar ver como as coisas acontecem para trazer minha família”, afirma Saintecy. Ele é casado e deixou no país de origem a mulher e duas filhas, de oito anos e sete meses.

via OCP Online