Por: Tita Pretti | 4 anos atrás

Qual a probabilidade de uma criança, filha de pais lavradores, tornar-se uma adulta instruída e bem sucedida?

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Todas, diria Sirley Maria Schappo. A diretora da Escola Municipal Francisco de Paulo, é a prova viva daquilo que ela prega para os grupos de professores que já coordenou e todos os alunos que ensinou.

Nascida no município essencialmente agrícola de Luís Alves, ela chegou a Jaraguá do Sul aos dois anos de idade, trazida pelos pais que buscavam uma nova vida na cidade que  “tinha fama de ser próspera”. A família comprou um lote no bairro Chico de Paulo, onde começaram a desenvolver a agricultura familiar.

Aos sete anos, Sirley entrou em sua primeira escola: Franciso de Paulo, a mesma dirigida por ela nos dias de hoje. Lá encontrou a professora que lhe serviu de inspiração e conheceu uma lição que hoje passa para todos.

“Vivia uma realidade muito simples, assim como a maioria dos meus colegas. Mas minha professora Gertrudes Alberton teve uma influência enorme na minha infância. Ela via potencial em todas as crianças, mesmo que fossem pobres ou passassem por sérios problemas em casa. Hoje digo para todos que o único responsável por moldar nossa vida somos nós mesmos”, conta Sirley.

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No ginásio (os quatro últimos anos do atual ensino fundamental), ela percorria quase cinco quilômetros de bicicleta diariamente para chegar até a segunda escola, o Abdon Batista, a escola pública mais próxima de sua antiga casa. Dedicação era o que não faltava, do percurso até a sala de aula. Sirley brinca que gostaria que todos os alunos fossem como ela foi na infância.

“Gostava muito de aprender, ia feliz para as aulas. Língua Portuguesa era minha aula favorita. Mas confesso que tinha uma matéria que não era meu ponto forte, a educação física. Já os livros, sempre gostei deles”, revela.

O gosto pela leitura ajudou a conseguir o primeiro emprego: vendedora da Grafipel, dos 15 aos 18 anos de idade. Assim como a experiência profissional, o avô materno teve forte influência para que ela iniciasse uma carreira na educação. Ele educou todos os 12 filhos, além de ser professor na comunidade onde morava, já que era um dos poucos que sabia ler e escrever.

De 83 a 85 ela estudou para o Magistério, no Abdon Batista e no Divina Providência. A primeira experiência como professora foi na Anna Töwe Nagelem 1987, mesmo ano que ela iniciou a faculdade de Letras Português/Inglês, na Univille. Na escola do bairro Água Verde, ela trabalhou com alfabetização e seu trabalho foi logo reconhecido. Isso porque de 1991 a 1997 ela integrou a Secretaria de Educação, atuando como orientadora de alfabetização dos professores da rede municipal de ensino. No mesmo ano que ingressava no cargo, ela concluía a Pós em Alfabetização pela Univalli.

“Quando entrei, era uma novata e logo peguei a primeira série. Dizem que com esta turma é que se conhece o sucesso ou o fracasso de um professor, pois é muito difícil. Apesar disso, é a série que se tem mais retorno como profissional. Não há nada mais emocionante que ajudar crianças que nem conhecem as letras a descobrir um mundo novo através da leitura e escrita”, afirma.

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Nessa instituição, ela também lecionou Língua Portuguesa e chegou a ser diretora por quatro anos. Trabalhou também na antiga Unerj (hoje a Católica de Santa Catarina), onde ficou por seis anos. De 2009  a 2012, chegou a ser a “diretora das diretoras”, atuando como Diretora de Ensino da Secretaria de Educação.

“Fiquei surpresa com o convite e encarei como um reconhecimento do meu esforço, já que nunca tive nenhum vínculo político. Essa é uma conquista profissional que guardo até hoje”, comenta.

Em 2013, veio mais um desafio: ser diretora da primeira escola que ela frequentou na infância. Carinhosamente chamada de “escolinha” pelos moradores do bairro, por ter apenas 12 turmas e 180 alunos, Sirley hoje comanda uma instituição que não faz jus ao apelido. Basta abrir as páginas de jornais para constantemente ver o reconhecimento por trabalhos inovadores desenvolvidos na escola.

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“Quando coloquei meu nome à disposição para ser diretora de escolas municipais, poderia ter escolhido outras maiores. Mas sempre que estive na Francisco de Paulo, participando de eventos como servidora pública, a emoção corria solta. Ficava com curiosidade em saber como seria encarar a escola com outro olhar, do outro lado. Trabalhar na escola que estudei é o fechamento ideal de um ciclo, que logo irá terminar com a minha aposentadoria, em três anos”, conta.

Dos tempos de sala de aula, ela recorda com carinho todos os projetos desenvolvidos para aguçar a vontade de ler nos pequenos. Em vez de exigir a leitura de um determinado livro e pedir uma daquelas básicas fichas de leitura, Sirley sempre trabalhou com atividades que pudessem estimular as potencialidades de cada aluno, assim como ela aprendeu com a sua mestres Gertrudes. Valia de tudo na hora dos alunos recontarem a história: teatro, música, quadrinhos, desenhos e todas as formas imaginadas por eles. Tudo isso sem esquecer de aliar o conteúdo à gramática, é claro.

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Dos desafios da profissão de docente, ela destaca o esforço que é preciso para lidar com questões educacionais que já deveriam vir de casa. “Às vezes isso desmotiva um pouco. A educação não é apenas de responsabilidade da escola. A criança é um reflexo dos pais, o que eles fazem em casa vai ser copiado na escola. Temos que trabalhar diariamente ensinando lições de gentileza, respeito, ética e cidadania. É uma perda de tempo necessária. Não adianta apenas focarmos no conteúdo acadêmico, há muitas questões que não se aprende em livros”, pondera.

Em compensação, a maior motivação de Sirley é poder fazer a diferença na vida dos alunos, pais e professores. Para ela, o estímulo da profissão vem da possibilidade de dar sentido para a vida dessas crianças, mesmo que elas sejam subestimadas pela própria sociedade. E esperando sempre o melhor do “futuro da nação” é que ela ganhou a fama de durona, que ela mesma concorda.

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“Sou exigente com todos aqueles que eu amo e conheço o potencial. Sou durona, mas é minha forma de demonstrar afeto. Às vezes, temos alunos que passam por momentos difíceis em casa. Não admito que eles se contentem com essa realidade e incorporem isso como um destino. Quero sempre que eles descubram o melhor que há dentro deles”, diz.

A mestre na arte de ensinar a gostar de literatura tem uma dica para você (que talvez ache que não tem apreço pela leitura).”Leitura não é só de livros, pode ser de revistas, gibis, sites da internet. Mas para tomar gosto pela literatura, uma boa opção é começar pelas crônicas, como as de Luís Fernando Veiríssimo”, opina.

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Que tal começar desde já como a “mestre mandou”? Perguntei à Sirley e ela indicou, obras indispensáveis para todas as idades:

– Crianças: todos da Ruth Rocha e, em especial, “A Chave do Tamanho” (Monteiro Lobato).

– Adolescentes: O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry) e “Ensina-me a viver” (Colin Higgins).

– Adultos: Série literária (quatro livros) “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo.

Boa leitura!

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Este post faz parte da série “Grandes Mestres de Jaraguá” e se você ainda não conferiu, dá uma olhada nas outras histórias que já saíram por aqui:

– Grandes Mestres de Jaraguá: Rosane Vera, a professora que ensinava com música

– Grandes Mestres de Jaraguá: o filósofo e sociólogo Oswaldo Mabba

Vale lembrar que, assim como a nossa leitora Karine sugeriu a história da Sirley, você também pode enviar a sugestão de um mestre que marcou sua vida, através do e-mail contato@poracaso.com