Por: Tita Pretti | 3 anos atrás

“O professor Mabba era como uma lenda do colégio. Aqueles que ainda não haviam passado por sua aula, já ansiavam ter ele como professor, por justamente ser tão conhecido pelos corredores. “

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Foto recente: Mabba com alunos no CAIC

Esse relato da ex-aluna do Marista, Fernanda Dellagiustina, resume exatamente a impressão que tive ao visitar a Escola Municipal Renato Pradi, no bairro São Luís, para conversar com um dos professores mais conhecidos – e queridos – da cidade. Assim que cheguei, fui recebida com um vozeirão, digno de ser ouvido nas rádios: “Muito prazer! Você já conhece a nossa escola? Vem cá, vou te mostrar “.

Ciceroneada por um verdadeiro mestre de cerimônias (fato que só fiquei sabendo mais tarde), conheci a sala dos professores, vi os trabalhos artísticos espalhados pelos corredores, as crianças brincando no ginásio de esportes, o pátio externo, a sala de informática, a área para prática artística, a biblioteca. E o professor, sorrindo com os olhos e a alma de tanto orgulho.

A cada lugar que visitávamos, Oswaldo José Mabba educadamente me apresentava a cada um dos funcionários. Os alunos que cruzamos no passeio, até os mais novinhos que ainda não estudam com ele, acenavam as mãozinhas euforicamente: “Oooooi, Mabba!”. E ele respondia a cada um deles com a mesma alegria, ao mesmo tempo que elogiava seus pupilos ao me contar sobre seus talentos e conquistas: “olha, ela é uma ótima jogadora de basquete”, “esta aluna fez a Primeira Comunhão na semana passada”, “vem conhecer o Guilherme, ele é um aluno muito especial para nós”. E comecei a entender tamanha simpatia que os alunos e ex-alunos têm pelo educador jaraguaense.

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#zoerando no registro

Mestre por vocação, começou a atuar como docente já na época em que estudou no Seminário Sagrado Coração de Jesus, de Corupá, de 1974 a 1989. De ascendência belga e austríaca, Mabba é poliglota: domina o inglês, o francês, o espanhol, o latim, o grego e o alemão. Após concluir a faculdade de Estudos Sociais e Filosofia em 1983, em Brusque, o então seminarista passou a lecionar inglês (idioma que estudou por 11 anos), educação física, história e geografia. Foram dois anos atuando no seminário, numa espécie de estágio, de 84 a 85.

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Paralelamente às atividades do seminário, Mabba cursou por três anos sua Pós-Graduação em Psicopedagogia em Porto Alegre durante os períodos de férias, além de se graduar em Teologia, em 1989. Durante o tempo em que estudou sobre as religiões em São Paulo, teve a oportunidade de fazer um curso de locução juntamente com o Padre Zezinho, famoso evangelizador católico. Mal sabia ele que iria usar a importante ferramenta da voz em tantas oportunidades.

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Mabba e Pe. Zezinho são amigos até hoje

Envolvido em tantas atividades, aquele ano foi crucial para mudar a história do mestre que hoje conhecemos. Prestes a ser ordenado padre, desistiu do chamado, mas não carrega arrependimentos da decisão nos dias de hoje.

Em 91, foi chamado para trabalhar no Colégio Marista São Luís, no Colégio Divina Providência (hoje o Bom Jesus), na antiga FERJ (hoje a Católica de SC) e na Rádio Brasil Novo, a RBN. Aceitou todos os convites. Na rádio, trabalhou por um ano como locutor de jornalismo e conseguiu ver na prática as mazelas da sociedade. Foram seis anos de trabalho no colégio gerido pelas freiras e 13 anos no colégio marista. Nessas instituições, ensinou Ensino Religioso, Geografia e História. Passou também pelas escolas Vítor Meirelles, Guilherme Hanemann e Ricieri Marcatto.

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Com outros feras do Colégio São Luís, lá pelos anos 80

Após concluir seu Doutorado em História, na Espanha, começou a trabalhar no CAIC (como é conhecida a Renato Pradi) em 97, de onde nunca mais saiu. Hoje, divide sua rotina entre a escola – onde ensina Geografia e História – e as aulas de Filosofia e Ética para quase todos os cursos da Católica. Só os alunos de Direito, incluindo o filho mais velho de Mabba – Gustavo, que não tem a oportunidade de ter aula com ele.

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Com formandas da Católica SC

E quase como filhos são tratados os alunos do professor jaraguaense.”Temos um papel importante na formação de cidadãos responsáveis e conscientes. Educar é algo sublime, é um ato de amor. É preciso se atentar para uma inversão de valores, onde se cobra resultados apenas dos professores. É uma parceria entre os professores, a escola e a família. Precisamos ensinar valores de responsabilidade desde pequenos, para que não sejam cidadãos omissos na sociedade”, comenta.

Para ajudar a formar cidadãos conscientes, ele diz que é preciso diferenciar a informação do conhecimento. “Vivemos em um mundo com muitas informação, mas a forma como você recebe e o que você faz com essa informação é o que determina se vai adquirir conhecimento ou não.” Para atingir esse ideal em sala de aula, ele gosta de fazer analogias para explicar até os mais complexos assuntos das matérias que ensina, como os números do PIB e renda per capita.

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“Quem curte o Mabbaaa?”

Com a professora de Ciências da escola, Suzana, já tem uma parceria de 20 anos promovendo atividades que aliam conhecimentos correlatos entre as disciplinas. Como falar de História, Geografia e Ciências ao mesmo tempo? Que tal estudando a bandeira do Brasil, as constelações, os estados e capitais, aprendendo sobre astronomia observando o céu?

Apesar de acreditar que para ser um professor, é preciso ter a aptidão para lidar com os seres humanos, Mabba afirma que, em contrapartida, é imprescindível que os profissões da educação sejam reconhecidos pela sociedade. “Se não houvesse professores ameaçados, sofrendo desrespeito, passando chapéu, quase pedindo esmola, ninguém iria fazer greve. Mas uma remuneração digna, por si só, não adianta. É preciso que haja a realização humana do professor. Falta consideração aos profissionais”, pondera.

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O professor favorito nas viagens de estudos

“In medio stat virtus”

 “In medio stat virtus”. A virtude está no meio. Esse ditado em latim, proferido por Mabba em sala de aula, nunca mais foi esquecido por Aline Bento, 30, a ex-aluna que hoje é auxiliar de biblioteca e colega de trabalho dele no CAIC. E a expressão filosófica que condena o relaxamento ao mesmo tempo que o rigorismo parece identificar o “perfil” de Mabba.

“Disciplina só por disciplina e rigidez por rigidez não valem nada, tem que ter um objetivo por trás. É importante ser flexível, ter compreensão, lembrar do propósito da educação”.

Quem reconhece esse estilo é a aluna Elisabeth Stephani, 12 anos, do oitavo ano. “Ele é muito divertido, elogia quando somos caprichosos, explica a matéria com brincadeiras, mas sabe ser bastante sério quando precisa”, conta. Para perceber o jeito brincalhão por trás de um biotipo intimidador, basta olhar para o pátio do CAIC na hora do recreio, antes e depois das aulas. Ah, e aos sábados e domingos também.

Isso porque o professor vai à instituição de ensino bem cedinho no fim de semana para abrir a instituição promovendo a “escola aberta”, e aproveita para acompanhar os meninos e meninas nos jogos de futebol, basquete e futsal promovidos na quadra de esportes. Ao final da brincadeira, organiza o local, tranca o portão e vai embora. Quem sabe esse seja o motivo da fonte de vitalidade que existe nele. “Gosto de estar sempre em contato com os alunos. Uma coisa é envelhecer, outra é ficar velho”, diverte-se.

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O lado aventureiro de quem envelhece sem ficar velho

O filósofo Oswaldo José Mabba

É nítida a satisfação que Mabba sente fazendo aquilo que ama. Se o sorriso transborda felicidade é porque a mente aprendeu a lidar com tristezas e a fé deu coragem pra continuar. Para ele, os momentos mais difíceis que viveu foram aqueles em que teve que se despedir de alunos que se tornaram grandes amigos. “É muito difícil lidar com a morte de pessoas queridas, mas Deus é maior do que qualquer problema que carregamos. Tenho sempre o apoio da minha esposa, Ana Amélia, que é o porto seguro da família”, conta.

Quando pergunto dos momentos memoráveis da profissão, ele abre um grande sorriso e fica tentando escolher um, como se um filme passasse na cabeça. “Lembro com muito carinho de vários momentos, mas um deles é até engraçado. Como mestre de cerimônias, anunciei ao microfone o nome de um aluno para que ele se encaminhasse à mesa da família. Ele veio em minha direção, deu um beijo na minha careca e falou ‘obrigado por tudo’. Na hora, fiquei sem reação e muito emocionado”, relembra.

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O honorável mestre-de-cerimônias

Casado há 23 anos, pai do Gustavo, 20, e Guilherme, 15, Mabba tem sabedoria de sobra para passar aos filhos (os de sangue e os que encontra todos os dias na escola da vida). Com sede de respostas (e uma vontade imensa de ter sido aluna dele), perguntei a ele sobre esses tempos de intolerância, revoltas, corrupção, indignação e violência em que vivemos. A resposta, digna de filósofo, deixo pra vocês na íntegra como reflexão:

“Esses dias que vivemos não são o fim. Eles representam o princípio de mudanças, de renovação. É um momento nobre, onde a sociedade que está cheia de ônus clama por atenção. Em todos os aspectos (sejam econômicos, políticos ou sociais), o que não pode existir é aquela busca por atalhos, que facilitem a vida mas não usem da ética. Não podemos nos desesperar com o mundo de hoje e os acontecimentos que estão ocorrendo. Nós temos pressa, mas a história não. Ela muda, mas não tem pressa.”


Se você admira o seu atual ou ex-mestre da educação de Jaraguá do Sul, envie sua sugestão para o contato@poracaso.com que ficaremos bem felizes em poder compartilhar histórias como essa, de professores que amamos e nos ensinam até hoje.

E para quem perdeu, aqui está o primeiro post da série Grandes Mestres de Jaraguá: “Rosane Vera, a professora que ensinava com música