Por: Tita Pretti | 4 anos atrás

Essa é daquelas histórias que fazem pensar que a vida prega umas peças…No caso da professora Rosane Vera Maia Pereira, o destino foi tão irônico que acabou mudando sua vida e a de tantos alunos que passaram por ela.

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Durante sua infância em São Bento do Sul, uma matéria marcou a experiência escolar de Rosane: a Matemática.

Infelizmente, a disciplina não proporcionou muitos momentos de alegria para a garota. A professora de Rosane, rígida como de costume na época, usava uma régua para bater na cabeça dos alunos, dizia que eles eram burros e nunca seriam nada na vida.

O “trauma” acompanhou Rosane por toda a juventude e, de certa forma, colaborou para ela escolher uma carreira. A adolescente decidiu cursar o Magistério justamente porque não teria que estudar Matemática, sem ter ainda consciência da vocação que deve vir de sangue.

“Minha mãe era professora, mas eu só fui saber bem mais tarde. Acho que não escolhi a profissão, já estava dentro de mim. Lembro que brincava de ser professora com a minha empregada. Pegava giz da escola e escrevia no armário do quarto”, lembra rindo.

E foi assim que sua jornada profissional começou. Em 1978, ela começou a lecionar em São Bento do Sul, quando nem formada era. Depois de deixar a cidade natal, também ensinou crianças de Florianópolis, Itajaí e partiu para morar no Ceará. Dedicada, estudava até altas horas da noite com a enciclopédia dada pelo pai, para ter todas as respostas na ponta da língua.

Em 1986, chegou a Jaraguá do Sul para abrir um negócio com o marido, mas a loja não vingou na época. Foi então a convite da Irmã Inês que no mesmo ano ela começou a trabalhar no Colégio Divina Providência.

Aqui na cidade ela deu continuidade a seus estudos. Rosane é formada em Educação Física, Pedagogia, Biologia e tem uma pós-graduação em Psicopedagogia. Lembra daquele trauma de Matemática? Então, pra se formar em Biologia, ela literalmente chorou para o professor de Física ser mais flexível em sua forma de avaliação.

Roland Dornbusch, Holando Marcellino Gonçalves (o Homago), Canguru, Colégio Euclides da Cunha, Abdon Batista, Centro de Educação Infantil Wolfgang Weege, Senac, Colégio Marista São Luís.

Todas essas instituições de ensino tiveram Rosane como professora. Só no São Luís, foram 15 anos de ensino e aprendizado, trabalhando de 1990 até 2005. Em sua página do Facebook, onde ela costuma postar várias fotos saudosas com os ex-alunos, o comentário é quase unânime: “que saudades de aprender Biologia e Ciências com música”.

Ensinar e motivar através da música. Essa parece ser a característica mais marcante da profissional. Você entende o porquê dessa constatação com esse vídeo aqui:

Mas e como usar esse dom para ensinar Ciências? E Biologia então?

A professora começou a usar canções para ajudar as turmas de Terceirão, que precisavam aprender rápido para o vestibular. Ela fazia um resumo das palavras mais essenciais, jogava na música e levava para a sala de aula. A motivação para ensinar desse jeito se tornou seu maior objetivo como educadora:

“Gosto de ajudar os alunos a descobrirem que a vida vale a pena. Qual é a função da mitocôndria na vida diária, por exemplo? Não tem graça você só saber que uma célula é uma célula. Se você não sabe o porquê das coisas, a vida não faz sentido algum.”

Talvez esse seja o motivo pelo qual ela mesma se define como “a professora do porquê”. Por quê? Mas por quê? Por que motivo mesmo?
Sua curiosidade sempre fez com que os alunos buscassem infinitas respostas, para perguntas que ela também não havia imaginado até entrar em sala e expôr um mundo de descobertas.

Passados os anos, ela vez ou outra encontra seus ex-alunos que confessam ter ido bem no vestibular por lembrar de suas músicas na hora da prova.

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Dou uma bala e nota 10 pra quem achar o Ricardo aqui nesta foto! 🙂

Coração flexível, mas pulso firme. Quando tinha que repreender, o fazia sem titubear. O filho dela, Luiz Sérgio (hoje com 33 anos), teve a própria mãe como professora e diz que ela sempre soube separar os dois papeis:

“Lembro que ela ficava até de madrugada em casa preparando as músicas para ensinar nas aulas. Uma vez, ela descobriu que eu e meus amigos – alunos dela e menores de idade na época – íamos para Corupá com motos scooter. Ela chamou todo mundo na minha casa para dar uma bronca. Quando contamos o que tinha por lá, ela foi compreensiva e quis experienciar o passeio. Levou 13 dentro de uma picape para a gente passear…era a primeira vez que ela visitava as cachoeiras”, relembra o filho.

Engana-se quem pensa que Rosane dava moleza pra Luiz. Ele não tirava as piores notas da turma, mas também ficava longe de ter as melhores. Certa vez, até ficou em recuperação na disciplina lecionada pela mãe.

Entre as memórias mais marcantes estão as experiências e pesquisas de campo que realizava com os pupilos, e o quanto isso impactou suas vidas.

“Uma vez fiz uma analogia com roupas coloridas dentro de uma centrífuga para explicar que o tempo, na verdade, não existe e é relativo. Você tinha que ver os olhos deles brilhando quando entenderam o que eu queria dizer. Também trabalhei com assuntos polêmicos, como os transgênicos e os aditivos químicos dos alimentos. Conheço gente que parou de tomar Coca-Cola depois disso. Minha ousadia foi o que me fez chegar tão longe”, orgulha-se.

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Em 2005 veio a aposentadoria – ao menos das escolas. Hoje, aos 59 anos, Rosane trabalha na Prefeitura coordenando o Programa Assessor Pronatec, encaminhando quem se cadastra no Centro de Atendimento à Família. Além disso, continua ministrando cursos (oratória, liderança, qualidade de atendimento) no Senac , instituição na qual começou a trabalhar há 17 anos.

Qual é a nota que podemos dar para essa professora? Bom, a resposta eu deixo para os alunos dela responderem aqui…mas sei a nota que ela daria para cada um de vocês…

“Durante um estágio onde ensinei oratória, a professora da turma me alertou que um aluno era o pior da classe. Ele acabou sendo o mais dedicado, o melhor de todos. Ninguém é um aluno nota 10, ou 7, ou 5. É preciso trabalhar as potencialidades de cada um, quando eles se descobrem, aí ninguém os segura.”


Se você admira o seu atual ou ex-mestre da educação de Jaraguá do Sul, envie sua sugestão para o contato@poracaso.com que ficaremos bem felizes em poder compartilhar histórias como essa, de professores que amamos e nos ensinam até hoje.