Por: Sistema Por Acaso | 2 anos atrás

POST PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 24 DE JUNHO DE 2015

Professor Ito, Jaraguá do Sul

Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

Inspiração pode ser contagiante. Nem todas as pessoas têm a vocação de transmitir entusiasmo, mas esse certamente não é o caso do professor Airton Luiz Schiochet. Mais do que uma carreira profissional, o percurso dessa personalidade deixou uma herança para o esporte de Jaraguá do Sul. Afirmar que não existiria prática de basquete no município se Airton não tivesse instigado a prática há 35 anos pode ser muito impositivo, mas ninguém contesta que a modalidade não teria tamanha magnitude sem o impulso desse, na época, aspirante a professor.

Porém, é a força inspiradora que inicia e transpassa essa narrativa. A ação de pessoas que tiveram vontade de fazer algo a mais, divergir do comum, combinada com a reação de alunos prontos para serem movimentados. O primeiro deles foi o próprio Airton, que quando cursava o ensino fundamental no Colégio Marista São Luís já era mais conhecido como Ito.

Foto cedida por Henrique Porto - Agência Sporto

Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

O primeiro ato dessa história tem a vinda do professor de educação física Durval Borba Neto para a cidade. Com a uma visão aberta para as novidades, Neto quis começar algo novo e deu início a prática de ginástica olímpica reutilizando alguns parelhos que estavam no Clube Baependi. Aquela circunstância era completamente diferente do que os alunos, incluindo Ito, esperavam. A prática esportiva nas escolas se tratava do simples ato de jogar futebol, no máximo atletismo, mas a inovação surtiu efeito.

“Eu tinha o biótipo e certa condição física. Ele viu que havia talentos e fez uma equipe do colégio mesmo. Treinamos e fomos para um dos jogos abertos em 1978 e ficamos vice-campeões. Foi assim durante seis a sete anos de competição com bons resultados. Ali começou. Eu nem imaginava fazer educação física, mas como a gente começou a se destacar na ginástica, eu quis fazer”, lembra Ito.

Ele começou a dar aulas antes mesmo de cursar a faculdade, logo após servir o exército em Joinville. Por volta de 1980, assumiu a primeira turma na escola Abdon Batista por indicação do influente Murilo Barreto de Azevedo, hoje considerado uma das maiores autoridades da educação física em Santa Catarina. A carência de profissionais na época era grande para essa área, e ele logo se identificou com a sala de aula e decretou a carreira como professor.

Foto cedida por Henrique Porto - Agência Sporto

Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

O divisor de águas, como o próprio define, veio durante a faculdade. Até então, a ginástica era o esporte prevalecente, a atividade com que Airton mais se identificava. “Com a transição de governo a ginástica, como se tinha que investir um custo muito grande, acabou. O fim da ginástica foi uma decepção para mim, de início, mas a faculdade foi me abrindo horizontes”, comenta. A atenção dele se voltou justamente para um esporte pouquíssimo praticado, mas que já tinha sua preferência, o basquete.

Foto cedida por Henrique Porto - Agência Sporto

Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

Tentar estimular essa prática não foi tarefa fácil. As escolas não tinham a estrutura necessária e Ito compensava isso com entusiasmo. Cadeira, arco e o próprio professor se transformavam na tabela para os alunos treinarem os arremessos. Só que ensinar o basquete não foi suficiente, o professor queria estimular o desenvolvimento da atividade em outras escolas e mobilizou outros treinadores para criar uma competição. Em 1983 aconteceriam os primeiros jogos escolares de basquete, daí equipe de Ito foi para os estaduais e começaram a se desencadear os talentos.

“Tudo que você faz com amor vai germinar, mas na proporção que aconteceu, eu nunca ia imaginar. Foi só uma sementezinha e, na verdade, foi a a resposta dos alunos que me motivou. Tenho uma marca para a minha vida que é o entusiasmo e a intenção. Eu quero fazer aquilo ali, mas se não colocar entusiasmo não vou ter a receptividade das crianças. Você pode ir em qualquer escola com uma coisa nova e, apesar das dificuldades, se você coloca as coisas com entusiasmo, as crianças te respondem”, considera Airton.

A integração com os alunos rompeu as fronteiras da sala de aula. Com o passar dos anos, mesmo envolvido em inúmeros compromissos, ele mantém o laço com o ensino. Afinal, foram essas ações que juntaram uma rede de professores interessados em desenvolver o esporte. Muitos dos alunos dele hoje treinam, ensinam ou praticam algum esporte profissionalmente. Outros levaram as lições para outras áreas.

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Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

Mas o marco para a consolidação do basquete, para o próprio Airton, foi a vitória estadual em 1993. Naquele ponto ele acreditou que a modalidade teria futuro, e decidiu definitivamente levantar essa bandeira. Ao invés de buscar novos horizontes, ele queria construir possibilidades dentro dos limites de Jaraguá do Sul, na sua cidade natal.

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Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

Desde então, foram anos e anos de títulos e competições que levaram junto o trabalho de inúmeros profissionais. Quando o grau de competitividade do basquete já estava bastante elevado, inclusive com a fundação da Associação Jaraguaense de Basquetebol (Ajab), foi hora de atacar outra frente: as categorias de base.

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Foto cedida por Henrique Porto – Agência Sporto

A criação do projeto “A Bola da Vez” trouxe um novo capítulo para essa história, elevando a prática da modalidade a uma forma de inclusão social. Ito lembra que, pela primeira vez, discutiu sobre a ideia informalmente com o então diretor da Weg, Décio Silva, e teve o apoio quase imediato. Com recursos financeiros da empresa, em 2001 eram criados os primeiros quatro núcleos de basquete espalhados em diferentes bairros da cidade. Alunos de escolas públicas tinha acesso a prática esportiva gratuitamente, após as aulas regulares. E não era uma busca por talentos, a intenção era simplesmente dar oportunidades para crianças em situação de vulnerabilidade social ter acesso ao um esporte, muitas vezes restrito a escolas particulares.

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Se muitos projetos sociais não encontram espaço para se desenvolver, Ito afirma que contou com a sorte para encontrar as pessoas certas no caminho. Atualmente, são mais de 1,1 mil crianças, entre seis e 14 anos, praticando semanalmente o basquete em 15 escolas jaraguaenses. Desde 2011, a iniciativa é apoiada pela Lei Incentivo ao Esporte e Cultura, 75% dos recursos continuam vindos da Weg, e o restante da empresa Oesa. Além do esporte, o grupo busca patrocinadores, como a Unimed, para conseguir doações de alimentos, roupas e até livros. Uma rede de iniciativas que, dificilmente, vai deixar o basquete ser esquecido no município.

“Sem dúvida é meu maior orgulho e fico muito satisfeito de estar junto. Não me vejo com a competência de dizer que sou o responsável. Mas pelo menos me considero uma pessoa de sorte. Quando você põe amor o universo conspira ao teu favor. Dentro das minhas limitações, eu sempre tento fazer o máximo para que todos se deem bem. É uma questão de dividir o sucesso com muita gente. Foram tantas pessoas no caminho que colaboraram. Eu divido esse sucesso com muita, muita gente”, finaliza.


Abaixo segue a galeria completa com as 13 imagens cedidas pelo amigo Henrique Porto para esta homenagem:

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Este post faz parte da série “Grandes Mestres de Jaraguá” e se você ainda não conferiu, dá uma olhada nas outras histórias que já saíram por aqui:

– Grandes Mestres de Jaraguá: Rosane Vera, a professora que ensinava com música

– Grandes Mestres de Jaraguá: o filósofo e sociólogo Oswaldo Mabba

– Sirley Schappo, a professora que ensinava a gostar de ler

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