Por: Tita Pretti | 12/08/2015
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Foto: Tita Pretti

O ano era 1969. Enquanto Jaraguá do Sul ainda tinha pouco mais de 30 mil habitantes, um jovem paulista chegava aqui para jogar futebol à convite do Padre Elemar Scheidt, figura importante para o desenvolvimento da cidade.

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Jaraguá do Sul em meados da década de 70. Foto compartilhada por Loreno Luiz Zatelli Hagerdon.

Em 1966, o padre havia fundado o Grêmio Esportivo Juventus, junto com outras 26 pessoas do Movimento da Juventude Católica da cidade.

Enquanto frequentava a faculdade de teologia em Taubaté, o religioso ficou amigo de uma família de atletas. Dois dos onze filhos do casal jogavam bola profissionalmente, enquanto o sexto da geração representava o Corinthians no time infanto-juvenil (embora o coração batesse mais forte pelo rival São Paulo). O sonho do garoto era ser padre, mas o destino quis que ele fosse ídolo do futebol. Dos quatro anos em que frequentou o seminário, dois deles foram em solo catarinense. Mal sabia ele que voltaria a viver tão pertinho de onde estudou: Corupá.

Veio então o convite para representar o clube jaraguaense, que mais tarde seria conhecido como Moleque Travesso. A promessa do time tinha nome e sobrenome: Ariovaldo Xavier.

Ari vestindo o primeiro uniforme profissional do Juve

O camisa 10 mais temido da região sempre vestiu esse número e nunca foi expulso

Ao chegar em Jaraguá, aos 18 anos de idade, o garoto estranhou a cidade (principalmente o fato curioso da rua Procópio Gomes cortar o cemitério central, dividindo os jazigos dos católicos e luteranos).

A escola escolhida para concluir o Ensino Médio foi o Adbon Batista. Lá, ele conheceu a mulher por quem sentiu um “amor fulmegante”, como ele mesmo diz. O problema? Ela era sua professora de Ciências, mais velha e noiva. No primeiro dia de aula, ele perguntou: “Casa comigo?”. A resposta vocês já podem imaginar qual foi.

Já a amizade com o tutor Elemar foi essencial para que o adolescente fosse bem acolhido. “Não sofri nenhum preconceito por ser de fora. Tinha a companhia do padre Scheid. Também tinha uma boa educação de meus pais e da escola dos padres que me deram embasamento na vida, mas é aquela história do ‘diga-me com quem andas…’”, diverte-se Ari.

Ari recebendo o diploma universitário das mãos do amigo e patrono de sua turma, Elemar Scheid

Ari recebendo o diploma do segundo grau das mãos do amigo e patrono de sua turma, Elemar Scheid

Em vez de batinas, estolas, casulas, vieram as chuteiras, meias e camisas nas cores branco e bordô. Estava contratado o primeiro jogador profissional do Juventus. Naquela época, os gramados não eram nenhum tapete, não havia alimentação controlada por nutricionistas, nem mesmo aparelhos tecnológicos que auxiliam no condicionamento físico e recuperação dos atletas.

Time do Juventus na década de 70

Time do Juventus na década de 70

Ainda assim, Ari é até hoje o artilheiro do Juve, com 254 gols marcados entre os sete anos que defendeu o time. Ídolo consagrado do clube, começou a sofrer com dores nos joelhos e como havia se formado em Educação Física pela Univille, decidiu que era a hora de parar.

“O futebol arte de criação e técnica estava terminando. Antes, o esporte exigia mais habilidade e o jogo passou a ser mais pesado, de confronto. O futebol começou a mudar. Escutei meu corpo e minha intuição”, conta.

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Multitalentoso, Arizinho não se arriscou apenas nos campos. Na faculdade, percebeu que tinha talento para outros esportes: a ginástica olímpica, as artes marciais, a natação e o futebol de salão.

Em 1972, ele fundou a primeira academia de Judô de Jaraguá do Sul, que funcionava no Salão Cristo Rei. Com a mesma modéstia e humildade que o fizeram deixar o futebol, o paulista deixou o cargo de treinador para dar lugar a alguém mais preparado, que pudesse dar continuidade ao trabalho que ele desenvolveu por um ano.

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Ari competindo nos Jogos Universitários Catarinenses

No mesmo ano em que começou a difundir as artes marciais na cidade, ele também foi o responsável por iniciar o ensino de natação no Clube de Campo Beira Rio.

“Esse foi o período que mais colhi frutos na minha vida. Acredito que as dificuldades fizeram com que eu me tornasse bem sucedido como atleta e, consequentemente, técnico. Não tinha mole não, imagina convencer atletas e familiares a treinar de manhãzinha até de noite no inverno rigoroso sem piscina aquecida?”, questiona.

A equipe do clube alcançou feitos inimagináveis para os dias de hoje. Teve atleta que se sagrou campeã como velocista e fundista, na mesma competição e no mesmo ano. Arizinho, como ficou conhecido, conta que teve a honra de ver a bandeira brasileira hasteada no Uruguai, com o vice-campeonato de uma travessia, conquistado por uma nadadora comandada por ele.

O paulista demonstrava ter habilidade para realizar os movimentos desafiadores da ginástica olímpica desde os tempos de faculdade. Percebendo o potencial de Ari como treinador para uma modalidade nova na cidade, uma de suas alunas de natação lançou um desafio.

“Quero ser sua primeira aluna de saltos ornamentais”, pediu Fedra Konell. Por dois anos, quatro jovens dedicadas saltaram dos trampolins do Beira Rio, levando a sério e competindo por Jaraguá do Sul no esporte olímpico de origem grega. Mais uma vez ciente de suas limitações, Ari chamou Orlando Cestren, conhecido como o “Pelé dos saltos ornamentais”, para colaborar com os treinos. E assim, Jaraguá foi bicampeã de Saltos Ornamentais nos Jogos Abertos de Santa Catarina.

Em 80, a história de Arizinho nas piscinas chegava ao fim. As aquecidas começavam a surgir em todo o estado e ele decidiu parar para não competir em desigualdade. Mas o legado deixado por ele germina até hoje: Ronaldo Frutuoso, seu ex-aluno, é quem comanda atualmente a natação no Acaraí.

Em 84, foi a vez de Ari explorar o voleibol — até então pouco competitivo na cidade e no estado — com o time “Cosmos”, apoiado pela Kohlbach. Logo recebeu apoio também da Prefeitura e passou a ser o time oficial da cidade. “Fico feliz em vê-los hoje, profissionais vencedores e a maioria dedicada ao esporte como professor”, conta.

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Em 86, o treinador também colheu frutos comandando times femininos da modalidade, com diversas premiações.

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Além de memórias eternas, Ari guarda também mais de 100 medalhas e troféus (como atleta e treinador) das competições que disputou levando o nome de Jaraguá do Sul para todo o Brasil e até para o exterior.

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O sucesso como esportista acabou sendo crucial para conquistar a esposa, Sueli Lenzi, com quem é casado há 43 anos. Lembra da professora de Ciências? Ela mesma! No primeiro dia de aula, ela obviamente negou o pedido de Ari, alegando que ele era louco.

“Ela não suportava futebol, mas um certo dia, quem eu vejo sentada na arquibancada do Estádio João Marcatto para me assistir? Foi ali que pensei ‘tô dentro’”, conta Ari.

A arquibancada de madeira do João Marcatto tinha capacidade para 100 pessoas – e olha a galera em pé para assistir!

A arquibancada de madeira do João Marcatto tinha capacidade para 100 pessoas – e olha a galera em pé para assistir!

Além de esposa, ela se tornou também Diretora do marido, enquanto ele trabalhou no Abdon, o colégio que uniu o casal. Concursado pela Prefeitura e pelo Estado, ele também passou pelo Alberto Bauer, Roland Dornbusch e Euclides da Cunha, como professor de Educação Física e diretor.

Nos 30 anos de profissão, mais de 9.000 alunos tiveram Ari como mestre, que reconhece a fama de “chato” que sempre teve para deixar exemplos de vida. Mas quem o conhece, sabe que a exigência alta sempre foi sinônimo de preocupação e carinho, sentimentos reconhecidos até os dias de hoje por seus ex-alunos.

Um deles tem eterna gratidão por seu professor. No dia da confirmação dos alunos que fariam uma viagem de formatura, o nome de Max Pires não aparecia na lista. Ari questionou o rapaz, que explicou não ter dinheiro para bancar o passeio. Foi o bastante para que o educador decidisse custear a viagem.

Quando perguntei sobre essa história, Ari chegou a ficar sem graça e humildemente explicou sua decisão.“Nunca me arrependi do que fiz por meus alunos…a gente sempre dá um jeito, né?”, disse com um sorriso tímido. Ele mesmo havia passado por situação semelhante quando frequentava a escola. Compaixão que causa gratidão.

Mais do que ídolo do esporte, ele diz que nasceu para ser educador.
“Em toda minha carreira, só lidei com pessoas que engrandeceram meu espírito. Quando encontro com ex-alunos na rua, eles me agradecem. Mas eu digo que eu que agradeço por Deus ter colocado eles em minha vida.”

Ari dando a largada de uma prova de automobilismo

Ari dando a largada de uma prova de automobilismo

A relação humana é justamente o fator que mais o motivou durante a carreira. Para estreitar os laços com os alunos e ex-alunos, ele chegou a criar um dos símbolos da Schutzenfest: a batata recheada.

A intenção era atrair bastante gente para a festa, criando uma grande confraternização. A ideia deu tão certo que o sócio e ele produziram as delícias da terceira edição da festa até 2011. O produto faz sucesso até hoje nas festas típicas de outras cidades do estado (também pudera: batata assada, requeijão, provolone e bacon sem gordura).

“Tem gente que vai à festa jaraguaense hoje em dia e pensa que a batata é minha. Mas infelizmente, atualmente é complicado participar…espero um dia poder voltar”, afirma.

Arizinho comanda hoje o “Box da Batata”, levando a delícia para toda Santa Catarina

Arizinho comanda hoje o “Box da Batata”, levando a delícia para toda Santa Catarina. Foto: Tita Pretti

Mesmo sem arrependimentos, ele comenta que se fosse começar hoje na profissão, pensaria duas vezes.

“O país não merece os professores que tem. A política infelizmente faz desses profissionais bodes expiatórios. Escolheria de novo ser professor por prazer, não por reconhecimento, valorização e remuneração justa”.

Tentando contribuir para mudar essa situação no país, ele se candidatou a vereador em 88, mas faltaram poucos votos para que fosse eleito. “Não fiquei aborrecido, vi que não era pra mim”, conclui.

A única mágoa que carrega é o fato de nunca ter sido convidado para integrar a Fundação de Esportes da cidade e poder contribuir com a comunidade.

Como diz ele mesmo, “a vida é que nem o esporte. Nunca se ganha sempre e nunca se perde sempre. A derrota que vem é para refletir e aprender”. Professor Ari, permita-me acrescentar: e ensinar.

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Prefeito Nutzi, Padre Elemar, Bibi Kohlbach e Ari — presidente da Feira da Malha e do Rotary Club