Por: Ricardo Daniel Treis | 4 anos atrás
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Quem nunca olhou pra trás que atire a primeira pedra! (Imagem retirada da página J4r4gu4 d0 su1 m1l gr4u)

O texto é do Dr. Eduardo Carvalho, teve primeira publicação aqui no blog no dia 15 de maio de 2014:

O PERSONAGEM
Todas as cidades, grandes ou pequenas, imagino, têm suas figuras folclóricas. Pessoas que terminam sendo conhecidas sejam pelo seu jeito, atitudes inusitadas ou histórias, independente de serem verídicas ou não. Tornam-se parte das conversas de amigos, nos bares, esquinas ou quando recordamos “velhos tempos”, procurando referências comuns, que nos sintonizem em determinadas épocas.

Por aqui, Ele anda todo de preto e isso não é uma metáfora. Pele negra, casaco longo (como de alguns heróis modernos do cinema), calça, sapato, óculos, meias e até uma meia luva. Quando ele anda pela rua tem um caminhar altivo, confiante e fica-se imaginando o que aqueles olhos,  escondidos pelas lentes, seja dia, noite, sol ou chuva, pensam do que vê.  Quase não cumprimenta as pessoas porque sabe que está sendo visto, e talvez esse mistério seja todo o seu charme.

Às vezes, enquanto não está incorporado, trabalha como todos pelo seu sustento, sendo educado e solícito. Ao sair de casa ou terminar seu expediente, a transformação se processa e seu novo “eu” entra em cena. Só que, diferente dos heróis da ficção de todas as épocas, nós conhecemos sua identidade pública.

Já conseguiu se tornar conhecido e  circulam histórias de alguns feitos ou atitudes dele que se mostram tão diversas e sem nexo, que só podem ser inventadas. Pessoas assim são quase como folhas em branco, onde podemos escrever, tendo nossas projeções como caneta. Ali, vamos colocando qualidades ou defeitos que imaginamos para dar a esse personagem um sentido. Ele parece aceitar tudo com naturalidade, se deliciando com sua popularidade, a qual para atingir não precisou cantar, pintar ou escrever uma linha sequer. Ela vem da curiosidade das pessoas que ele, naturalmente ou não, soube conquistar.

Já faz parte do dia a dia da cidade e qualquer campanha publicitária que fale da identidade do lugar precisará incluí-lo, para não atestar sua parcialidade. Muitos dizem ter a curiosidade de conversar com ele para conhecê-lo melhor e procurar entendê-lo, mas poucos já o fizeram. Quando passa, já não desperta cochichos nem estranhamento pelos aldeões. Penso que ninguém quer quebrar esse encanto de descobri-lo simplesmente igual a todo mundo, só que de roupa preta, deixando o encanto perder-se.

Precisamos dele assim, totalmente misterioso e incerto. Mesmo agora, se ele quiser falar de si, provavelmente não seria ouvido porque isso quebraria tudo que se construiu em torno dele. Se podemos imaginá-lo para que conhecê-lo?

Fazemos esse mistério com quase todas as pessoas que conhecemos muito ou pouco; as imaginamos e quando as percebemos verdadeiras, despidas de nossas expectativas, nos surpreendemos ou decepcionamos.

Certa vez, conta-se, teve uma namorada e não se falou de outra coisa. Poucos casais VIP’S receberam tantos comentários. Da moça nada se soube, a não ser o que se via; que era   bonita e parecia gostar dele, já que estavam sempre abraçados.

Pelo que correu nas conversas, esquinas, pizzarias nos sábados à noite ou pelo que se parou de ver, durou pouco tempo. Mas esse acontecimento foi suficiente para também torná-la uma figura que merecia a curiosidade, afinal, ela sabia quem ele era, conversava com ele! Essa moça, se a víssemos hoje talvez não lembrássemos quem era, afinal sempre  víamos só a ele.  Ela levou consigo a resposta do mistério e voltou ao anonimato.

Ainda bem!