Por: Anderson Kreutzfeldt | 4 anos atrás

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Era uma sala de aula gigante e lotada. Não havia ar condicionado e fazia muito calor. Aquela morena vinha de uma cidadezinha dos arredores e chegava sempre atrasada. Quando ela estava próxima da sala, já se ouvia o toc toc dos seus altos saltos. E a galera do pré-vestibular já ficava algariada só com o aviso sonoro.

Ela surgia na porta, pedia licença, desculpas e entrava. Aquele curto trajeto da entrada até sua cadeira era o desfile que tanto esperávamos. A guapa alimentava os sonhos da galera, pois já era uma mulher de fato e mais velha que a nossa maioria adolescente.

A morena apresentava-se bem. Lembro dos vestidos que pareciam ter sido costurados sobre aquele bem torneado corpo. Ficava só na contemplação, até que o meu amigo Sebaje, chegou com uma conversinha: “Quando tu falas na aula, a ‘guria das calcinhas’ fica de olho em ti!”. Esqueci de dizer que ela tinha essa alcunha porque vendia lingeries, o que mexia com os hormônios da turma. Muitas vezes o Sebaje voltava à tona com esse assunto sobre o interesse da guria, mas na minha cabeça a conta não fechava; eu não me valorizava, talvez.

Passado um tempo, em Blumenau, encontrei essa guria na rodoviária e, em seguida, pegamos o busão pra Jaraguá. Sentamos juntos e o papo fluiu. Ela falava e colocava a mão no meu joelho quando terminava a sentença. Pensei: se ela fizer isso mais “dez vezes” eu vou agarrá-la. E assim foi. A morena disse que tinha uma “atração” por mim, porque me achava inteligente. Eu era, na verdade, amigo dos professores e não os deixava no vácuo quando pediam alguma participação.

Tenho uma amiga que tem fetiche por caras de óculos. Se bem que, entre duas gurias, eu prefiro a que estiver de óculos, acho até que sei explicar: os óculos remetem à inteligência e esta é, sim, afrodisíaca.

Certa vez, noutro estado da federação um amigo conheceu uma nordestina que gostava de ficar a dois de formas distintas e lá foram eles para o cemitério; noutra ocasião com a moto pra dentro de um quarto de motel, porque tinha que ser em cima da “biz”. Noutra ele teve que levar o capacete do trabalho e numa tarde, saiu-se com essa: “Ôh Marcelo, tu precisas muito desses óculos aí ou dá pra se virar sem eles?”. Para o Millôr, tudo estava valendo: “A pior das taras sexuais é a abstinência”.

Conheço uma secretária que tem taras com uniformes. Outro dia, um piloto trouxe um sujeito. Dizem que naquela manhã ela não saiu da recepção, onde o cara esperava o chefe. Tem cada doido por ai! Quando falei que escreveria sobre esse assunto, um companheiro de trabalho me disse: “Calça branca me dá tesão até em varal!”. Ainda bem que o nosso trampo não é em um hospital.

Marcelo Lamas é escritor. Autor de “Arrumadinhas” e de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.

marcelolamas@globo.com