Por: Sistema Por Acaso | 20/01/2015
Seguranças garantem a exclusividade dos camarores VIP’s nas noites da cidade

Seguranças garantem a exclusividade dos camarores VIP’s nas noites da cidade

Qual distância separa um camarote do público em geral? No sentido literal, alguns pares de metros. No figurado, pode ser um abismo. A reflexão se traduz num termo que vem se difundindo no Brasil e foi, há alguns dias, tema da redação do vestibular Fuvest 2015, o processo seletivo da Universidade de São Paulo: “camarotização”. Cunhado pelo prestigiado filósofo político americano Michael Sandel e traduzido do inglês skyboxification, o neologismo está associado à ideia de segregação, vista pelo autor na separação entre mais e menos abastados em estádios e outros espaços de eventos, mas também em diferentes lugares na sociedade. No caso brasileiro, pesquisadores destacam casos exemplares como as áreas especialmente reservadas para os chamados VIPs em boates, arenas esportivas, shows ou no carnaval. E associam o fenômeno a recentes tensões geradas pelo acesso de camadas mais populares a shoppings, bairros nobres e até mesmo a algumas praias.

— Há outros três termos ligados à ideia de “camarotização”: distinção, desigualdade e segregação. O impulso de distinção está associado a se apresentar ao mundo pelo consumo, de forma a se diferenciar. Já a desigualdade e a segregação, no Brasil, são ainda mais agudas — avalia Alexandre Barbosa Pereira professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo (USP).

O fenômeno é histórico no país, ressalva Pereira, citando clássicos literários que visitaram temáticas relacionadas, como “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda. No entanto, recentes avanços na distribuição de renda teriam agregado novos componentes aos conflitos entre classes.

— O acesso de pessoas mais pobres a aeroportos, shoppings ou bairros mais nobres através do metrô gera uma grita dos que antes tinham vantagens. Essas pessoas querem preservar certas coisas porque não as entendem como privilégios, mas como consequência de mérito ou de dom — opina, lembrando casos que tiveram grande repercussão como os chamados rolezinhos e o episódio em que um passageiro foi ironizado nas redes sociais por estar de bermuda num aeroporto. — Esse processo de segregação é a negação do outro, da convivência com ele. E, embora às vezes a violência seja pretexto para a segregação, a segregação muitas vezes é a causa da violência.

Educação diferenciada

Para o antropólogo, outra amostra de efeitos nocivos da “camarotização” está nos resultados da avaliação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013, que, pela primeira vez, teve divulgadas notas por escola com estratificação nos níveis socioeconômicos. Análises mostraram que os colégios com melhores notas são os de faixa socioeconômica muito alta e alta, o que, para ele, indica que apartar crianças pobres e ricas em escolas resulta em uma má distribuição do ensino de qualidade.

A avaliação se aproxima da abordagem de Michael Sandel, cujo trabalho se propõe a refletir sobre qual o papel do dinheiro na sociedade. Professor de Harvard, ele é autor de palestras e textos em que afirma que a lógica de mercado da economia se reproduziu na sociedade, penetrando instâncias como saúde, educação e política. A mercantilização de tudo, teoriza, leva ricos e pobres a terem vidas cada vez mais separadas. A “camarotização” representaria ameaça à democracia, uma vez que o regime, em suas palavras, “exige que os cidadãos compartilhem uma vida comum”. “O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes se encontrem e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e a respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum”, afirma, em trecho destacado pelo vestibular da USP.

Professora da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Rosana Pinheiro-Machado, cientista social e antropóloga, também condena o fenômeno que, para ela, “emburrece”.

— A “camarotização” é uma expressão máxima do que temos assistido no patético comportamento de nossas elites, que, na Europa, adoram pegar ônibus e, no Brasil, nunca entraram em um porque tem muito povão — critica. — Ao segregar, perde-se em diversos aspectos trazidos pela negação da alteridade. Ao nos confinarmos, emburrecemos. Achamos que estamos agradando, mas estamos nos tornando caricaturas do ridículo e da falta de imaginação.

A visão se distancia da interpretação de Everardo Rocha, antropólogo especializado em consumo. Professor da PUC-Rio, ele admite que o desaparecimento do convívio entre pessoas de classes sociais diferentes pode ser nocivo. No entanto, em determinados casos, diz ser inevitável.

— Acho que a separação das pessoas diante do dinheiro é inerente ao sistema capitalista — avalia. — O convívio pacífico entre diferenças é sempre uma coisa boa. A experiência humana se enriquece dessa forma. Mas, ao mesmo tempo, é muito difícil tornar todos absolutamente iguais diante do capital.

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