Por: Sistema Por Acaso | 3 anos atrás

Matéria de Natália Trentini, para o jornal O Correio do Povo.

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Vestindo um surrado moletom preto, calça azul claro, gorro cinza e com a barba por fazer, o arquiteto Geovani Satler, 33 anos, experimentou os limites do comportamento social. Durante uma manhã e uma tarde, catou lixo, pediu esmola e transitou por Curitiba como mais um dos moradores que habitam as ruas da capital do Paraná. A ideia era simplesmente tentar compreender como as pessoas podem viver em uma realidade de extrema carência material.

Para fazer o contraponto, ele percorreu os mesmos espaços públicos no dia seguinte. Mas, desta vez, usava um alinhado terno cinza, estava com o cabelo penteado e a barba bem aparada. Geovani viu e sentiu reações completamente diferentes das pessoas ao seu redor, simplesmente pelo que a aparência dizia sobre ele.

Durante as horas que passou pelas ruas, percebeu o relacionamento comunitário entre os moradores. Dividiu comida, dinheiro, informação e, como eles, viveu apenas no presente. Conseguiu um almoço por R$ 2, descobriu onde tomar café da tarde e onde poderia passar a noite, amparado por serviços oferecidos pela Prefeitura ou por organizações sociais.

As situações de maior estranheza vieram quando Geovani circulou por espaços incomuns. Na saída do hotel, ele precisou assinar um termo descrevendo a forma com que estava vestindo. Em um shopping, foi sutilmente seguido por seguranças e quase foi barrado em uma igreja. “Eu era uma pessoa anormal naquele contexto. Ali eu estava com medo daquela situação, nas ruas não. Nós temos roupas para determinadas situações e você é aquilo que você veste, infelizmente”, comenta.

A recepção foi completamente diferente com o traje social. Ele sentiu que causava boa impressão nas pessoas. No banco de uma praça teve companhia, enquanto como mendigo, foi evitado. Transitou por espaços com facilidade e teve a atenção das pessoas nas ruas, que no dia anterior reagiram com receio.

Em uma concepção inicial, Satler também tinha conceitos. Ele considerava os moradores de rua como pessoas que sofrem, mas a experiência mudou este pensamento. “Fui com a intenção de entender por que eles se rebaixavam a isso, mas hoje me pergunto por que a gente se rebaixa a tantas coisas. Os verdadeiros mendigos não estão nas ruas, mas dentro de casa, mendigando atenção da família, curtidas no Facebook, sustentando aparências e com vidas vazias”, analisa.

O saldo foi uma profunda reflexão, principalmente sobre a forma como ser humano, imerso em uma lógica capitalista, vive. Para ele, contas, compromissos, afirmação social e consumo por aparência distanciam as pessoas de contemplar a vida. “É bom ter desejos, se você não se sacrificar por isso ou passar por cima de ninguém. A gente quer ter coisas, mas o que preciso sacrificar do meu ser para manter esse mundo? Essa é a grande questão”, finaliza.