Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

Eu sou um chato. O que não é uma novidade. Principalmente para quem me conhece há mais tempo. Não um chato como aquele das músicas do Oswaldo Montenegro (“bonzinho e gosmento”) e do Cazuza (“o otário”), nem como o do Millor Fernandes (“aquele que conta tudo tim-tim e depois ainda explica em detalhes”). Pelo menos espero que não.

Sou daquele chato que fica observando os outros. E que às vezes esquece que está olhando e as pessoas percebem (para desespero da minha filha e da minha namorada). E, como justifico para ambas, deve ser coisa de cara metido a escritor. Ou de escritor que não decolou, já que meu único best seller publicado não é best e muito menos seller.

Mas sempre fui assim, de ficar olhando. Desde a época que ia para a faculdade de ônibus, quando o tempo entre o ponto de ônibus e a universidade era propício para ficar observando. Não importava se ia em pé ou sentado. Olhava. Analisava. Confabulava comigo mesmo. Mulheres, homens, crianças, idosos, gente estranha ou normal. Até porque ser estranho ou normal é relativo.
Aquelas pessoas que eu achava estranhas do alto dos meus 17 ou 18 anos provavelmente achavam que o estranho era eu.

Vários personagens dos meus contos (se alguém quiser se arriscar, pode ler alguns deles aqui: http://www.bacafa.blogspot.com.br/2011/08/contos-de-quinta.html – inclusive há um escrito pela minha filha) ou dos meus livros inacabados ou não publicados provavelmente vieram desta época de observação juvenil, acumulando-se e montando-se aos poucos, ou ficando eternamente inacabados, como somos nós, afinal.

De tanto observar, mesmo inconscientemente, muitas vezes vejo o que não gostaria de ver. Tempos atrás vi uma dessas cenas dispensáveis.

Almoçando ou esperando o almoço, não lembro, na praça de alimentação do shopping, estava eu de frente para um restaurante que serve por quilo.

E aqui cabem parênteses. Não sei se já aconteceu com o caro leitor, mas me incomoda aquela pessoa que está atrás de mim na fila e vem pegando a comida que está na minha frente ou, pior, que vai se encostando, empurrando, com uma pressa incompatível com o bom hábito de se alimentar. Se a pressa é tanta, vá comer um lanche na esquina…

Pois bem. Como eu disse, estava de frente para o tal restaurante, e apareceu um “ser”do sexo feminino com este problema. Não só praticamente pegava dos pratos a frente de duas moças que estavam antes na fila, como pensei que iria derrubá-las. E o tal “ser” era uma daquelas mulheres que já passavam dos 40 anos com roupas bem justas, aparentemente siliconada, fazendo o tipo mocinha chique. Nada contra mulheres com mais de 40 anos, roupas justas, peitos sintéticos ou moças chiques. Só não gosto de pavonices e gente mal educada.O “ser” foi tão desagradável que as duas mulheres a sua frente cederam espaço para que ela pudesse patrolar o resto do bufê.

Fiquei pensando com meus botões como é possível haver pessoas tão espaçosas.Lembrei, assim, de outros “seres” desta espécie. Há aqueles que forçam uma alegria nas filas de banco, cantando o que ninguém quer ouvir, ou contando piadas sem graças em alto tom, gargalhando sozinhos. São os exagerados. E há, também, aqueles que querem que todos ouçam a porcaria que eles ouvem, com som alto nos carros, filas ou apartamento do lado.

Tenho certeza que o caro leitor, sem qualquer esforço, consegue listar mais um rol enorme de espécies e subespécies…