Por: Ariston Sal Junior | 4 anos atrás

Abaixo a transcrição do desabafo da estudante Mikhaila Copello que evitou um linchamento em um bairro na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A histeria coletiva

Bom, eu não sou muito de falar sobre nada além do humor no facebook, muito menos de postar sobre política, mas hoje passei por uma das experiências mais aterrorizantes da minha vida:

Estava realizando minha primeira entrevista para a pesquisa sobre intervenções temporárias, num papo incrível com a Fernanda, quando ouvi do outro lado da rua : “Pega ladrão!” , num ato instintivo aproximei meus pertences de mim, achando que tudo aquilo que ali acontecia, mesmo que atravessando a rua, estava longe de mim, quando cercaram o tal do sujeito, e ele , no desespero, voltou correndo na direção do bar que eu estava.

Nisso, um jovem, de uns 20 poucos anos, forte, deu uma banda no sujeito, que voou com a cara no chão, ficando com o rosto completamente dilacerado, sendo recebido então com chutes e pontapés na cara, e eu não aguentei > pode-se falar de instinto, mas eu levantei.

Fui até o sujeito, separei a briga, aos berros, enquanto uma multidão se reunia aos gritos de “mata! mata! ” , e ouvi “sorte sua que você é mulher, se não apanhava também”, deixei o sujeito – branco, entre 25-35 anos- na parede, pedi que ligassem pra polícia e o que fosse, e pedi um pano pra estancar aquelas poças de sangue que escorriam no chão.

Nisso surgiram as ameaças, os “se fosse com você, você ia deixar que ele apanhasse” ou “você não deve ser moradora da Freguesia”, que adiantava eu dizer que já fui assaltada diversas vezes? ou que a própria assaltada não permitiu que seu namorado machucasse o homem? por quantas vezes eu tive que gritar “vocês não são Deus, e não podem decidir a morte de um ser humano “, e ser recebida com o adjetivo de “defensora de bandidos”, por mais que eu berrasse “vocês não entendem nada!! eu não defendo o que ele fez! que sociedade é essa que acabamos com bandidos virando assassinos? eu não vou deixar ninguém morrer”, e eu tremia, e tremo até agora, tive medo de ser espancada por ele, de ver tanto ódio nos olhos de quem nem nunca foi assaltado , de ouvir “sorte sua que esteve aqui, porque meu cachorro ia matar ele”, mas sorte minha de ter ouvido 6 pessoas me agradecendo, falando do coração que eu tive de defender até quem não merecia, ao ver deles, de me arriscar e chorar por ter medo de quem nos tornamos, daqueles que ali me rodeavam, que enchem o peito pra dizer que são ‘gente de bem’, mas que mataria qualquer um que vissem sendo espancado na rua.

Não, que chegue a polícia, e chegou.
O pior foi que os que tanto queriam matar o homem , criticaram muito nossa polícia, como ela não faz nada, como não funciona, e a primeira frase do policial, ao chegar , foi dizer “devia ter apanhado mais, gosta de bandido então leva pra casa”, aos coro de palmas da maioria que estava ali.

Você entenderam tudo errado, quem defende essas pessoas não é defensor de bandido ou de monstros, mas está te dando uma chance de não se tornar um monstro como eles.

E faria de novo.

Saiba mais: Globo