Por: Cláudio Costa | 04/11/2015

Em 1907, a chegada da linha férrea em Jaraguá do Sul deu um grande impulso para a economia da Colônia Jaraguá. A primeira estação já estava em construção e foi inaugurada em 1909. O primeiro prédio foi ampliado em duas ocasiões, mas, com o crescimento da população e o aumento do envio de cargas, passou a não suportar mais a demanda e ficou sobrecarregado. Segundo documento produzido pela historiadora Silvia Kita, chefe do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul, “um anteprojeto, datado de 26 e outubro de 1938, marca a necessidade de uma nova edificação”.

Estação Ferroviária em foto da década de 60. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Estação Ferroviária em foto da década de 60. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

O prefeito de Jaraguá do Sul na época, tenente Leônidas Cabral Herbster, buscou a ajuda do interventor de Santa Catarina, Nereu Ramos, para que o apelo por uma nova estrutura chegasse até o governo federal. Em 1943, a nova Estação Ferroviária foi inaugurada. “Amplo e moderno, o novo edifício apresenta linhas arquitetônicas, ótimo acabamento e mobiliário adequado. O projeto dos engenheiros Achilles Colli & Pozzoli foi edificado pela empresa Irmãos Thá, de Curitiba”, conta o documento do Arquivo Histórico.

Foto: Liliane Horst Soares‎/Reprodução Facebook

Praça 29 de Outubro, inaugurada junto com o Terminal Rodoviário, em 1944. Foto: Liliane Horst Soares‎/Reprodução Facebook

A inauguração da nova Estação Ferroviária foi um marco para a cidade. “O prédio melhorou o embarque e o desembarque de passageiros. Antes, havia um verdadeiro aglomero de pessoas e cargas”, comenta a historiadora Silvia Kita, ao ressaltar que a antiga estação foi transformada em um terminal de cargas. Uma curiosidade: segundo Silvia, algumas vezes, quando o trem vinha do interior rumo ao litoral, o maquinista precisava dar a ré na locomotiva para que os passageiros embarcassem após os produtos produzidos na região, principalmente laticínios, fossem acondicionados nos vagões de carga.

Ponto de encontro

A nova Estação Ferroviária não era apenas um terminal de passageiros e cargas, com um importante papel no transbordo rodoferroviário. A construção trouxe novidades. No entorno do prédio foi construída uma área de lazer, uma opção de divertimento e de interação social entre os munícipes. O prolongamento até o Mercado Público formou, junto com o atual Terminal Urbano, o Centro Histórico de Jaraguá do Sul. “A rua Independência foi alargada e virou a avenida Getúlio Vargas, se tornando uma das principais ruas da cidade”, lembra Silvia Kita.

Foto: Maria Teresa/Reprodução Facebook

Avenida Getúlio Vargas na década de 80 ou 90, ao fundo o terminal de cargas. Foto: Maria Teresa/Reprodução Facebook

O terminal ferroviário era um verdadeiro centro de informações. Afinal, as notícias de todo o Brasil chegavam através da ferrovia. “As revistas e jornais chegavam pelo correio (transportado pelo trem) e a central telegráfica também funcionava no prédio”, explica Silvia Kita. Além disso, a estrutura influenciou a vida social de Jaraguá do Sul.  O local também era um ponto de encontro da comunidade. O movimento intenso de viajantes atraiu os olhares da população. “Muitas pessoas ficavam lá só para ver o movimento de chegada e partida das pessoas”, afirma Silvia. O comércio também se estabeleceu em torno da estação.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Guichês da Estação Ferroviária. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

O prédio era ponto de encontro dos jovens da época. “Nos anos 40, 50 e 60, a estação se constituiu como um ponto de sociabilidade dos jovens. Ali, as pessoas tinham a possibilidade de tomar um sorvete, tomar cerveja e encontrar os amigos”, enfatiza o pesquisado e historiador Ademir Pfiffer. “Inclusive, eles assistiam o boi de mamão do popular Manequinha, que se apresentava no entorno da estação”, completa.

Pfiffer ressalta que, com a criação do Estado Novo (1937 – 1945) e a criação do Plano Nacional de Ensino, em 1939, inspetoras escolares nomeadas em Florianópolis vinham até Jaraguá do Sul para fiscalizar as unidades educacionais da cidade. “Muitas professoras iam até a estação para ter um contato com os visitantes. E era a possibilidade de encontrar um namorado”, relata.

Foto: JM Tony/Reprodução Facebook

Foto da estação datada de 1930. Foto: JM Tony/Reprodução Facebook

A Estação Ferroviária também foi testemunha de importantes acontecimentos históricos, como a partida e a recepção dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira. Eles lutaram na Segunda Guerra Mundial, em 1944. “Foram convocados cidadãos do Vale do Itapocu e do Vale do Itajaí para combater no front italiano. O regresso dos soldados, em 1945, também aconteceu na estação de Jaraguá. Centenas de famílias receberam os heróis nacionais”, salienta.

Revitalização

De 1944 a 1991, a popular Litorina transportou pessoas entre Corupá e São Francisco do Sul diariamente e em diversos horários. Mas a construção de estradas, como a BR-280, e a popularização do transporte rodoviário, com mais opções de destinos, fez com que o transporte ferroviário de passageiros fosse abandonado no Vale do Itapocu. Atualmente, apenas o transporte de cargas vindas do porto de São Francisco e do interior do Paraná passa pelos trilhos de Jaraguá do Sul.

Popular Litorina em foto da década de 80. Foto: Carlos Fernando Piske/Reprodução Facebook

Popular Litorina em foto da década de 80. Foto: Carlos Fernando Piske/Reprodução Facebook

Em 1998, a estação e o armazém de cargas foram tombados pela Fundação Catarinense de Cultura. O processo de tombamento nacional ainda está em trâmite no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional). Em 2005, a Fundação Cultural de Jaraguá do Sul adquiriu os dois prédios após longos anos de negociação. O projeto de revitalização foi aprovado no Ministério da Cultura e os recursos para a obra foram captados através da Lei Rouanet.

fundacaocultural

Foto: Fundação Cultural de Jaraguá do Sul

A revitalização do Centro Histórico de Jaraguá do Sul, finalizada em 2008, trouxe um novo ar para a área. O abandono e a deterioração deram lugar a um novo espaço, que conta com uma praça e um anfiteatro. O armazém de cargas comporta a estrutura da Biblioteca Pública Rui Barbosa. O prédio do antigo terminal passou a receber o Museu da Paz, que contém peças alusivas a Segunda Guerra Mundial e a participação dos brasileiros no confronto.

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