Por: Sistema Por Acaso | 24/01/2013

O primeiro chegou comentando: “Ela só fica lendo aquele livro. Eu posso sair pra fazer qualquer coisa que ela não ‘dá falta’ de mim”.

Eu tinha lido uma nota sobre o fenômeno editorial da trilogia “Cinquenta tons de cinza”, logo que o primeiro livro de sucesso da inglesa, E.L. James, chegou ao Brasil, classificado como pornô soft, erótico, entre outros.

Certa feita, num curso para escritores, uma colega perguntou para a professora:
– Qual a diferença entre livro erótico e pornô?

A tiazinha PhD respondeu:
– Filha, o livro erótico você lê segurando-o com as duas mãos. O pornô com uma só.

Vi mulheres lendo no aeroporto, no shopping e na biblioteca, logo, consegui classificar os 50 tons.

Fui procurado incontáveis vezes pela gurizada. Sendo o “amigo escritor”, eu tinha obrigação moral, no inconsciente deles, de ter informações confiáveis e, até, exclusivas sobre os livros. E eu gosto de opinar – sobre qualquer assunto – na informalidade, depois do futebol, lá no boteco, na hora do almoço. Pra não decepcionar, fui atrás das leitoras vorazes e elas foram unânimes em dizer que os homens também deveriam ler. Li opiniões em revistas dos dois gêneros. Fucei nos livros.

Quem está fazendo o mundo girar ao contrário é o protagonista, Christian Grey, que seduz uma virgem estudante. Ele jovem, empresário, rico, tem e pilota um helicóptero, gasta três horas nas preliminares (descritas em três páginas), gosta de ficar conversando depois do sexo e deu-lhe todos os presentes possíveis e, ainda, a convenceu a assinar um contrato como “submissa”. Uma grande ficção.

Mas o que interessa é que as pessoas estão lendo e, também, que a nossa classe masculina não poderá ser acusada friamente de ser pervertida só porque estes assuntos são – ou eram – mais frequentes nas nossas conversas, afinal nossos temas são mais restritos (sem bolsas, manicures, vestidos balonês organização da casa, ou qualidade do serviço da diarista).

A partir desta revolução estaremos mais livres para propor coisas diferentes e as nossas parceiras não ficarão preocupadas com o que vamos pensar sobre o conhecimento delas acerca das propostas. O importante é que tudo valha para os dois lados: as sugestões, os consentimentos e os prazeres.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com