Por: Sistema Por Acaso | 8 anos atrás

Aquele meu amigo era muito apaixonado. A menina tinha predicados e até curso de modelo no currículo.

Ele começou a fazer investidas e para impressionar a gata, apresentava-se sempre com roupas de grife. Todas emprestadas.

Contou com a colaboração da galera para a aproximação. Em seguida, a paquera virou namoro oficial. E por um bom tempo foi o casal mais admirado – e até invejado – do bairro.

Da parte dele, o amor era sem limites. Mas do outro lado, ela não demonstrava ter dependência química no relacionamento.

Até que, por um motivo fútil, ela pediu um tempo. Ele ficou desesperado, caiu em depressão e sumiu.

Reapareceu lá em casa, com olheiras enormes, num sábado ensolarado de inverno: “Marcelo, preciso da tua ajuda! Faz uma carta pra Luciana, ela tem que voltar pra mim”.

Eu tinha uma máquina de escrever novinha e também alguma reputação por ter feito a redação vencedora numa gincana. Ele tinha convicção no poder da máquina e pediu: “escreve com letras vermelhas”.

O apaixonado e a minha mãe, prestando consultoria, ditavam as frases e eu datilografava naquele papel cor-de-rosa. Eu estava concentradíssimo, pois minha moderna Olivetti portátil não tinha a tecla “Delete” e o sujeito só tinha trazido uma folha.

Terminado o serviço, escrevi a frase final: “Com amor, Marcelo.”, pois ele tinha o mesmo nome de batismo que eu.

A carta chegou às mãos da destinatária, mas não teve o resultado esperado. Até conversaram, mas ela pôs fim ao relacionamento, definitivamente.

Meu homônimo chegou a tentar o suicídio e foi internado numa clínica. Perdemos o lateral-esquerdo do time por meses.

Certo dia, indo para a escola, ela sentou-se ao meu lado no ônibus e tascou:

– Foi você que fez aquela carta, né?

Expliquei a situação: que escrevi a pedido, que os pensamentos e desejos não eram meus, que qualquer outra pessoa poderia ter ajudado o camarada.

Não adiantou muito. Toda vez que os nossos caminhos se cruzavam ela voltava ao assunto, com certa empolgação.

Um dia, numa festa, eu estava avulso, meio fácil, e ela veio rindo e jogando o cabelo pra cima de mim:

– E aí Marcelo? E aquela carta que tu me escreveste?

Respondi impulsivamente:

– Escrevi mesmo!

– Eu sabia! Só queria que tu confessasse.

E sumiu, antes que eu falasse mais alguma coisa.

Esta crônica é dedicada às mulheres no seu dia internacional. Também é dedicada a nós, homens, pela persistência diária de tentar descobrir os enigmas feminimos.

Marcelo Lamas é escritor.
marcelolamas@globo.com