Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

Reza uma lenda da Grécia antiga que um cortesão vivia bajulando o tirano Dionísio, o Velho. Passava seu tempo falando que Dionísio era um grande homem, afortunado e poderoso. O nome do bajulador era Dâmocles. E a história era contada pelos grandes oradores na Roma antiga.

Ocorre que certo dia, de tanto ouvir o cortesão dizer que ele era o homem mais feliz do mundo por suas riquezas, o tirano ofereceu-se para trocar de papel com o lambe-botas. Os olhos de Dâmocles brilharam, e então passou a ser servido com os melhores vinhos e as melhores comidas pelos mais bonitos escravos e escravas, nas mais belas e confortáveis acomodações. E ele se refestelava no luxo que lhe era proporcionado por Dionísio.

Curtindo sua alegria e seus momentos de pompa e suntuosidade, repentinamente Dâmocles percebeu que sobre sua cabeça havia uma espada pendurada apenas por um finíssimo fio. Todo seu prazer e entusiamo foi literalmente engolido a seco. De um momento para outro, as raras comidas, os caríssimos vinhos, as macias almofadas, as cheirosas exóticas flores, os solícitos escravos ficaram em segundo plano e não mais tinham a mesma importância.

Dâmocles pensou em sair rapidamente de baixo daquela espada, cujo fio que a sustentava poderia arrebentar, causando um ferimento fatal em sua cabeça. Entretanto, o medo lhe tomou conta. Pensou que se se movimentasse poderia ele próprio causar o rompimento do fio e sua consequentemente morte. Seu êxtase foi trocado pela sua insegurança e preocupação.

Dionísio, então, que de bobo não tinha nada, explicou a seu amigo que era assim que se sentia dia após dia, justamente por conta da riqueza e poder que possuía. A todo momento preocupava-se de ser traído, envenenado, alvo de injúrias ou coisas que o valham. Dâmocles não quis mais o poder e a riqueza. Dizem que nunca mais sequer pensou em trocar de lugar com os poderosos.

E a expressão “a espada de Dâmocles” passou, assim, a significar um perigo iminente ou a preocupação que certos poderes, benefícios e vantagens nos trazem.

Pois bem. Lembrei dessa expressão quando soube das notícias envolvendo o senador goiano Demóstenes Torres. Não que algum dia eu tivesse acreditado nessa aura que ele próprio criou para si de paladino da justiça e defensor da moral política.

Lembrei-me de Demóstenes, o original, um político grego conhecido pela sua oratória, que inspirou e inspira muitos ainda. O Demóstenes da cidade goiana de Anicuns, porém, mostrou-se um estafeta de bicheiro cuja retórica cingiu-se a querer chamar a atenção por uma suposta defesa da hombridade política. O político que falava aos quatro ventos mal dos desvios de Brasília, utilizando o púpito do Senado Federal como trampolim midiático, quedou pelos mesmos atos que condenou. Quedou pelos mesmos atos que hipocritamente condenou.

Demóstenes, o estelionatário da opinião pública, não perdeu somente peso. Perdeu publicamente sua honra. Não sei se teve tempo de ganhar o tal milhão que o bicheiro segurava. O fio que segurava a espada arrebentou.

Lamentável ver senador – ou juiz – amigo íntimo de contraventor preso.

Os gregos têm muito a nos ensinar. Alguns não aprendem. No final descobrimos mesmo que a política se tornou uma verdadeira caixa de Pandora, dona das piores surpresas.

Por Raphael Rocha Lopes