Por: Raphael Rocha Lopes | 24/04/2012

Semanas atrás recebi um e-mail (mais de um, na realidade) cujo título era mais ou menos assim “Você é o escambau”. Contava, o texto, não exatamente com as palavras que narro agora, que uma determinada pessoa (que aparentemente assinava a missiva) estava indignada porque um magistrado não aceitou ser chamado, em gabinete, de “você”. E mais, que o dito juiz de Direito ainda tinha lhe desferido um impropério: o tal “escambau”. Mais exatamente um “você é o escambau”.

O emitente do e-mail original – não os que recebi, que já eram replicados – parecia até letrado, pois discorreu sobre a origem etimológica da palavra “você”, que, segundo ele, está associada à expressão antiga “Vossa Mercê”. E pesquisou, também, a origem da palavra “escambau”, a qual, segundo essa pessoa, não seria possível precisar.

O intelocutor virtual estava indignado, embora em nenhum momento tenha sido indelicado ou mal educado, com a reação do magistrado ao ser chamado, como já falei, de “você”. “Você é o escambau” teria sido a resposta.

Um conselheiro antigo, chamado Jack, diria para irmos por partes. Vou tentar seguir tão sábia orientação, dividindo meus pensamentos em duas partes.

Na primera tenho que dizer que procurei nos seis dicionários (mais dois eletrônicos) que tenho em casa – alguns bem antigos, é verdade – e não encontrei a palavra “escambau”. Mas que a palavra existe, disso não tenho dúvida. Já a ouvi. Já a falei. E se está na boca do povo, existe. Contrariado conversei com o “todo-poderoso”. E o Google me levou a Sérgio Rodrigues, da Coluna Todoprosa. Fiquei ainda mais frustrado quando descobri que a palavra está no Houaiss, o dicionário que está na casa dos meus pais! Pode significar tanto “um monte de coisas” quanto ser um eufemismo de palavrão. Lendo o texto de Sérgio Rodrigues, tive a sensação que foi da mesma fonte que bebeu o indignado autor originário do e-mail.

Pois bem. Dadas as circunstâncias parece que o “escambau” do e-mail foi usado mais como uma retaliação (ok, outro eufemismo) do que como “Você é um monte de coisas”. Vá lá, eu não estava presente para saber se isso aconteceu ou não, mas não é coisa que se espera ouvir de um magistrado em um gabinete. Na realidade, não sei, também, se o dito autor do texto o realmente é.

Assim, chego ao segundo ponto. Pronomes de tratamento. Aprendi lá no primeiro grau, agora ensino fundamental, que “você” é utilizado para tratamento íntimo ou familiar. Nunca tratei meu tio desembargador ou meu padrinho juiz de “você” dentro de um fórum. Se bobear, nem fora, por simples questão de respeito. Aprendi, lá no primeiro grau, que magistrado se trata de “excelência” ou “meritíssimo”.

Aprendi, também, e aí foi em casa mesmo, que com intimidade se trata aqueles com quem se tem intimidade. E respeitosamente a todos. Quem me conhece sabe que não faço questão alguma de ser tratado por “doutor”. Contudo, até hoje trato pessoas que não conheço ou conheço pouco por “senhor” ou “senhora”, ainda que sejam mais novos do que eu, enquanto não me derem sinal de permitirem outro tratamento.

Vou mais longe. Penso que muito do desrespeito que parcela da molecada alimenta hoje decorre da falta da imposição de certas formalidades. Não é frescura. É respeito, puro e simples. É educação na sua vertente mais natural.

Por Raphael Rocha Lopes