Por: Ricardo Daniel Treis | 6 anos atrás

“Passaporte?” murmurou roucamente a loira búlgara recepcionista do hotel. Seus lábios estavam manchados de batom vermelho intenso. “Brasileiro”, gritou. Seu rosto ficou banhado de alegria. “Francisco Buarque”, ela disse. Aquela recepção indicava que o hotel, no passado, tinha sido gracioso. As moldagens nos cantos do teto eram desenhos de frutas. As mobílias em fórmica, mais do que usadas, com pegadores que se destacavam através de seus contornos. No centro, uma mesinha com um dos pés quebrados. Sobre ela, nada. Nem uma toalhinha em crochê. Sentada do outro lado da mesinha, uma moça pintava as unhas. Entrou nas palavras. Falava bom inglês e me ajudou com a entusiasmada recepcionista. “Quer massagem?” disse Flavia, a garota detrás da mesinha de centro. “Sexo? Muito bom.” Seus cabelos louros eram abundantes, olhos negros grandes e líquidos. Seus seios quase eram todos vistos numa blusa decotada e sem sutiã. (A prostituição é o único serviço de quarto proporcionado na maioria dos hotéis de países ex-comunistas, como a Bulgária, de aparência falida.

A rapidez com que esse tipo de serviço chega a porta, sem ter sido pedido é surpreendente. Senti pena dela, e da Bulgária, reduzida a vender louras para estrangeiros). Ela sorriu e acenou com a cabeça. Sorri devolta e sacudi a cabeça. “Não, obrigado”, disse eu. Flavia não aceitou a resposta. “Apareço depois. Massagem muito boa”. “Espero que você ache alguém para massagear”, respondo. Uma hora mais tarde após uma ducha e de minhas anotações num diário, saio em busca de qualquer coisa para o estômago e a moça ainda na recepção. Paro diante dela para escutar que ainda se lembrava muito bem das histórias intermináveis que ouvia de seu tio a respeito da vida no Brasil. O tio trabalhava em navios de carga que de vez enquanto atracava em terras brasileiras. Dizia que, no Brasil, as pessoas faziam amor como macacos, a toda hora e a qualquer lugar; as mulheres eram fáceis e sempre dispostas; não havia no mundo mulher afim de sexo como a brasileira. “É verdade que no Brasil não posso me abaixar, para pegar algo que caiu no chão?, senão…” “Sim é verdade” – respondo sorrindo e emendo: “no Brasil existe um animalzinho chamado furão. Ele tem um focinho enorme e vaga pelas praias, pelas ruas.

O furão tem paixão por subir pelas saias das mulheres gringas e enfiar o focinho entre suas pernas”.


Charles Zimmermann (charlesautor@gmail.com) quem publicou o texto no OCP de sexta passada. Meio que pra ver ao vivo o monge da piadinha sacana, nessa queria estar lá.

E falando em estar lá, que coisa essa Bulgária, hein.