Por: Tita Pretti | 3 anos atrás

Passando pela Praça Ângelo Piazera, você com certeza já comeu um lanche feito pelo Antônio Maicá Siqueira. Talvez você não saiba, mas esse é o nome do famoso “Gaúcho do Crepes”, que toca o ponto que salva a vida dos esfomeados há 21 anos.

Desde 1994, Antônio cuida do "Crepes da Praça", com a ajuda do filho Murilo e de toda a família

Desde 1994, Antônio cuida do “Crepes da Praça”, com a ajuda do filho Murilo e de toda a família

Apesar de se definir como um “gaúcho bagual” (como chamam no Rio Grande do Sul os homens estúpidos e insensíveis com as palavras), nada disso é o que vem à tona quando ele verdadeiramente abre o coração.

Tive a sorte e o privilégio de ter um encontro transparente e emocionante com ele. E o que escutei foi uma daquelas histórias que serve de exemplo pra correr atrás dos sonhos, todos os dias.

Nascido em Cacequi , pequena cidade do centro-oeste do Rio Grande do Sul, “Tonico” (como é chamado pela família) partiu com a família para Cruz Alta, aos 2 anos de idade, e depois para Bagé, aos 15 anos. As mudanças de cidade aconteceram porque o pai, ferroviário, era constantemente transferido.

Mesmo tendo crescido em uma família de classe média, o gaúcho decidiu começar a trabalhar precocemente, aos 12 anos. O emprego já exigia de Tonico a habilidade com as mãos. Foi em uma oficina de latoaria, que ele aprendeu a consertar carros danificados por capotamentos ou batidas. Antes empregado, aprendeu tudo o que podia e decidiu abrir sua própria latoaria aos 15 anos de idade.

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A primeira profissão acabou se tornando um empecilho no primeiro casamento. Sua ex-mulher era professora de inglês. Ele, latoeiro. Ela queria voar, alçar voos mais altos para conquistar os sonhos. Ele queria fazer o que sempre soube. Logo, a distância entre os dois mundos se tornou insustentável e veio o divórcio. Hoje, os dois são grandes amigos.

Aos 30 anos, casou-se com Elizabete, com quem teve três filhos: Renan, Murilo e Melina. Em 1994, o país ainda passava por uma forte crise financeira após o fim do governo Collor.

“Estávamos na miséria. Um amigo sugeriu que eu fosse morar em São Paulo ou em Santa Catarina. Não conhecia nenhum dos dois lugares. Comprei um livro sobre a região e não hesitei. Nós cinco entramos na nossa Belina 2 com a decisão de mudar de vida, mesmo sem saber onde iríamos chegar e onde iríamos morar. Tínhamos 10 pacotes de bolacha e refrigerante, e uma barraca carregada por uma carreta. Não cheguei aqui com uma mão na frente e a outra atrás, cheguei com as duas para atrás”, conta.

O pai e o sogro desaprovaram a ideia, dizendo que a atitude era coisa de louco, que ele enfrentaria dificuldades. Quem desacreditava no sucesso dele, recebia a seguinte resposta: “enquanto tiver braços para trabalhar, não irei passar fome”.

Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

O gaúcho nem ao menos conhecia a BR, mas seguiu firme no propósito: encontrar um novo lar. Passou por Brusque, Blumenau, Joinville, mas nenhuma das cidades catarinenses agradou. Chegando em Jaraguá do Sul, viu a WEG, os morros, o verde, as flores. Pronto, foi amor à primeira vista. E eles decidiram ficar.

Sem terem onde dormir, um dos primeiros conhecidos na cidade sugeriu que a família fosse acampar em Enseada, no litoral do estado. Uma barraca no “Camping do Mazinho” acabou se tornando o novo lar dos gaúchos. Por um ano, os cinco dormiram e acordaram juntos sob o mesmo teto.

Antônio conseguiu negociar a compra de uma latoaria na Bernardo Dornbusch. Segundo ele, naquela época o negócio parecia oportuno, já que a maioria das famílias já contava com dois carros e os serviços seriam necessários. Por um ano, ele tocou o negócio enquanto os filhos e a mulher começavam a fazer crepes em Enseada. Tudo era bem controlado: cada centavo que se ganhava era suado e as compras meticulosamente controladas. Naquele ano, a família toda comia uma única refeição: arroz com couve.

Certa vez, os filhos e a esposa vieram a Jaraguá para visitar Antônio. Dormiram todos na latoaria, sobre um tapete e mantas velhas. Resultado: as crianças ficaram com sarna. Tiveram muita coceira, lesões pelo corpo inteiro e até sangramentos. O pouco dinheiro que tinham – R$ 40 reais –  foi todo gasto em medicamentos. Ou comiam ou tratavam a doença de pele.

Humildemente, Antônio foi de porta em porta buscando ajuda para comprar alimentos. Na verdureira do Jozel, conseguiu um crédito, pegou alguns quilos de comida, e prometeu pagar tudo assim que conseguisse juntar dinheiro com seu trabalho. Ganhou a confiança do dono do estabelecimento. E ainda ganhou um amigo, a quem ele é grato até os dias de hoje.

Com o sucesso do lanche feito em Enseada, a ideia foi trazida para Jaraguá, em 1994. O ponto escolhido para o negócio veio a calhar. O proprietário do terreno ao lado da Grafipel estava de viagem, sem data para voltar. Ofereceu a Tonico um espaço para que fizesse os crepes. Começava então uma história de sucesso, no coração da cidade: a Praça Ângelo Piazera.

No começo, foram muitas as dificuldades. Além do baixo orçamento para começar o negócio, até para rechear os crepes doces era uma função tremenda: Tonico comprava várias balas de chocolate e as derretia manualmente. Mas o que ele não contava era que o produto iria demorar um pouco para ser popularizado.

“Era até engraçado ver a reação das pessoas. Muitos compravam os crepes mas colocavam um monte de guardanapos em volta para esconder. Tava na cara que estavam com vergonha. Talvez por nunca terem visto ou pelo apelo popular. Mas o que é uma besteira, pois tenho clientes de todas as classes sociais, que se encontram no mesmo lugar. É um espaço democrático, pra todos os gostos”, afirma Antônio.

Como ele destaca, sente um orgulho enorme em saber que seu estabelecimento se tornou um ponto de encontro da cidade, embora lamente que a economia e a falta de eventos que costumavam ocorrer na Praça Ângelo Piazera tenham deixado o local menos movimentado e, inevitavelmente, menos alegre.

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Quem aí também sente saudades da antiga Praça Ângelo Piazera, como o “gaúcho do crepes”?

“Lembro com carinho dos shows que acontecerem aqui: Engenheiros do Hawaii, Jair Rodrigues, Família Lima, entre outros. Não lamento só pelo lado financeiro, mas porque as festas eram ótimas opções de lazer para a população. Quando a praça tinha mais árvores e o lago, a população frequentava mais o local, era uma atração para reunir as famílias”, relembra com saudosismo.

E de família unida ele entende. Os filhos cresceram e seguiram diferentes caminhos profissionais. Hoje, seu Antônio toca o negócio com a parceria integral do filho Murilo, que estuda educação física, seguindo os passos do pai, que largou a faculdade para lutar pela sobrevivência da família. Mas eles nunca deixam de estar juntos.

O filho busca hoje estudar aquilo que o pai teve que deixar para trás, para sustentar a família

O filho busca hoje estudar aquilo que o pai teve que deixar para trás, para sustentar a família

O gaúcho me pede um minuto de nossa conversa pra mostrar as fotos que guarda no celular. Com os olhos marejados, fala do orgulho que sente por toda a família, mostrando o caçula Muriel, de 17 anos, que tem um desvio cerebral: “Olha que exemplo de vida, alegria e superação. Ele acabou de se formar!”

Através da fotografia, seu hobby, Antônio registra todos os momentos especiais da família, além de ser um apaixonado pela natureza

Através da fotografia, seu hobby, Antônio registra todos os momentos especiais da família, além de ser um apaixonado pela natureza

E como família ele também trata os clientes, muitos deles amigos que ajudaram na caminhada até os dias de hoje. Mesmo aqueles que não são conhecidos são sempre recebidos com um sorriso no rosto. E alguns são agraciados com a benevolência de quem um dia já sofreu.

Ele relembrou momentos em que percebeu que alguns clientes não poderiam pagar pelo lanche, oferecendo um salgado acompanhado de um refri. Afinal, quem tem gratidão pela vida tem todos os motivos para retribuir.

O que descobri com o “gaúcho do crepes”

Da nossa conversa, descobri que o crepe favorito dos jaraguaenses é o de frango com catupiry. Descobri que tem quem peça de banana, bacon, chocolate, orégano e catupiry.

Descobri que as mãos do seu Antônio, as ferramentas para seu trabalho, começam a sentir as dores de uma inflamação nas articulações. E acabei descobrindo o grande sonho do seu Antônio. Tomado pela emoção, interrompemos a entrevista. Deixei de lado a repórter para pedir um abraço, como amiga. Tonico precisou de uns 15 minutos para serenar. Depois, ele disse sofrer por não saber se ainda vai conseguir conquistar esse sonho.

Nossa entrevista chegou ao fim, com esta repórter que vos escreve apreciando um delicioso crepe de frango com catupiry, acompanhado de uma latinha de refrigerante. Preocupada com o carro que havia deixado no estacionamento da praça, disse que precisaria ir embora, pois a multa já deveria ter sido dada. Sem hesitar, Antônio ainda se ofereceu para pagar.

Fui embora pensando em toda aquela história de vida e em seu grande sonho, que guardo em segredo. A conclusão que cheguei, preciso compartilhar com vocês e espero que o recado chegue até ele:

A la pucha, tchê! Gaúcho que já encarou fome, frio, doença, preconceito e muitos maus bocados na vida, tem coragem de sobra para pelear e conquistar tudo o que sonhar. A você, o gaúcho mais jaraguaense que já conheci, mando um grande abraço, com a certeza de que em breve te encontrarei no coração da cidade, feliz com o sonho realizado.


“Quem são esses jaraguaenses”, confira também o post de estréia da série, apresentando ninguém menos que D. Melânia, a famosa proprietária do Ponto Doce.