Por: Ricardo Daniel Treis | 5 anos atrás

Rubens Herbst quem trouxe a coleção do figura à luz da mídia. Confiram:

Por experiência própria, digo que as fitas cassete eram um problemão – enrolavam, oxidavam, acumulavam mofo e perdiam qualidade com rapidez. Mas nos anos 80 e parte dos 90, eram uma maneira ótima de disseminar a música e, para as bandas independentes, de se fazer ouvir sem desembolsar fortunas. Ainda assim, se para a maioria as fitinhas hoje não passam de memórias inaudíveis da adolescência, para Edson Luis de Souza elas são preciosidades dignas de ganharem a eternidade. Por isso, como cultuador do underground brasileiro desde a tenra idade – e do qual também fez parte como vocalista da lendária banda joinvilense The Power of the Bira –, ele tem se ocupado em tirar do limbo sua gigantesca coleção de cassetes ao digitar trabalhos de duas, três décadas atrás e postá-las nos blogs Joinroll (apenas com bandas de Joinville e região) e Demos-tape Brasil (dedicado a gravações de todo o País). Direto de Jaraguá, onde mora, Edson falou sobre a sua missão apaixonada, um papo longo e informativo que pode ser lido na íntegra no blog Orelhada.

Desde quando você coleciona fitas? Começou com o envolvimento com o underground e o Curupira?
Edson Luis de Souza – Começou em 1987, cinco anos antes de o Curupira abrir. Esse conceito de demo tape era muito vago ainda, pois as primeiras fitas não tinham capas. Era tudo escrito a caneta. Lembro que a turma que tínhamos no bairro Glória juntou grana para comprar uma demo do Tensão Superficial. Imagina o nível da dureza do pessoal, juntar dinheiro para comprar uma fita.

Você tem ideia de quantos cassetes possui? Ainda as escuta?
Edson – Tenho cerca de mil fitas demo. Se considerar que em muitas delas há mais de uma gravação por fita, deve dar em torno de umas 1.400. No blog, na semana passada, chegamos a 110 demos digitalizadas, então, se for nesse ritmo, tem material para mais dez anos de blog sem repetir nada. Na realidade, eu não ouço mais, e a explicação tem a ver com o equipamento. Esses tape-decks (reprodutores) estão virando verdadeiras raridades. O que eu tenho hoje uso para realizar as conversões e não sobra muito tempo para diversão.

Parece que os cassetes estão voltando a ser cult, tipo os LPs…
Edson – Formatos são formatos. Hoje existe o mp3 como formato supremo. Até o CD já caiu em desuso, e já faz tempo. Ninguém precisa ficar refém de formatos. Sou contra isso. As pessoas costumam abandonar esses formatos com o advento de novas tecnologias. A minha visão é agregar, e não substituir. O que me preocupa mesmo com esses revivals de cassete e vinil são os equipamentos, cada vez mais caros e raros.

Como surgiu a ideia do blog Demo-tapes Brasil?
Edson – Eu já fazia algumas conversões para uso particular. Conheço bem o processo. Comecei a fazer o Joinroll em maio de 2010. Como as minhas fitas das bandas da nossa região estavam misturadas com as de outros Estados, essa seleção reviveu lembranças boas de outras grandes gravações presentes nessa minha coleção. Comecei a procurar algumas específicas, de grande interesse meu em ouvir novamente, e fui me frustrando porque não achava nada. No bom e velho estilo “faça você mesmo”, pensei: ‘Se ninguém fez, faça você mesmo!’. Aí, aos poucos, com grande dose de paciência as conversões, foram saindo e o boca-a-boca da internet foi aumentando.

Por que esse período dos 80 e 90?
Edson – Foi o período mais fértil para o formato no Brasil. Foi quando os equipamentos começaram a ficar mais acessíveis e realizar gravações deixou de ser um luxo, claro que em diferentes níveis. As bandas que tinham dinheiro alugavam um estúdio profissional e as que não tinham juntavam equipamentos com os amigos, alugavam uma mesa de som e faziam gravações caseiras.

Você continua recebendo material nesse formato?
Edson – Recebo muitas doações de pessoas com o senso da importância de se preservar essas gravações. Fico feliz quando alguém me procura oferecendo suas fitas. A maioria cita que não tem mais onde ouvir, mas não gostaria de jogá-las fora. Sabendo do trabalho responsável e histórico que faço, elas ficam felizes de saber que as fitas estão em boas mãos. Se você tem fitas em casa e não usa mais, me procure. Por favor, não jogue fora!