Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

Incrível entrevista que encontrei enquanto navegava pelo site da revista. Confira:

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Se você encontrar um integrante de uma tribo Dothraki é uma boa ideia saudá-lo com um respeitoso m’athchomaroon e passar longe de palavras como gale. Quem afirma isso é o linguista contratado pela série Game of Thrones para criar as línguas “estrangeiras” da história – o Dothraki e o Alto Valiriano. David Peterson, formado pela Universidade da Califórnia em San Diego, é integrante da Sociedade de Criação de Linguagens, organização que se dedica às conlangs.

Conlang não é uma gíria Dothraki e sim uma sigla que, em inglês, significa “língua construída”. Ou seja, idiomas como o esperanto, que tiveram suas regras, palavras e construções pensadas e desenvolvidas – diferente das línguas naturais, que surgem de forma espontânea através da derivação de sons e de dialetos. E os conlangers estão muito presentes em obras de ficção. Além de Game of Thrones, eles já criaram o Klingon, de Jornada nas Estrelas, o Na’Vi de Avatar e as línguas aliens de Defiance. Até J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, pode ser considerado um conlanger por desenvolver os idiomas funcionais Quenya e Sindarin.

Se você quer contratar alguém para criar um idioma, o site da Sociedade de Criação de Linguagens pode encaminhá-lo para um conlanger. O preço pela criação das bases de uma língua é honesto: mil dólares.

Conversamos com David Peterson sobre Guerra dos Tronos, a criação do Dohtraki e até pedimos para que ele nos ensinasse a xingar no idioma de Khal Drogo. Confira:

Qual é a relação que você manteve no idioma com a cultura Dohtraki?

O idioma inteiro é baseado na realidade dos Dohtraki. Consequentemente, há palavras para descrever todas as plantas, animais e os fenômenos que acontecem em seu cotidiano – e nenhuma para situações desconhecidas.

Pode dar exemplos?

Não faria sentido criar palavras para “livro”, “ler” e “escrever” já que o Dothraki não existe na forma escrita. Também não há palavra equivalente a “obrigado”, porque a cultura deles não observa a gratidão da mesma forma. Mas há palavras diferentes para fezes de animais, dependendo se elas estão frescas ou secas. Como as fezes secas são usadas para fazer fogueiras, essa distinção é muito importante para eles. Também há 14 palavras diferentes para “cavalo”.

Os atores da série conseguem se comunicar na língua?

Pelo que sei, os atores apenas memorizam as falas, sem aprender o idioma. Não esperava que eles aprendessem, afinal, seria um trabalhão. Eles “pegaram” algumas palavras e expressões, mas duvido que conseguissem manter uma conversa simples em Dothraki.

E eles cometem muitos erros?

O principal é a pronúncia da palavra Khaleesi, com a qual eles se confundem frequentemente. Mas cada vez que alguém esquece ou pronuncia errado uma palavra, acontece a mesma coisa de quando alguém comete um erro em sua língua nativa – você passa por cima, não tem problema nenhum

Quantas palavras existem, hoje, no Dothraki?

Mais de 4 mil. Para o começo da série, criei 1,7 mil. Mas, sim, crio novas palavras continuamente e vou continuar a fazer isso no futuro. Adoraria chegar ao número de 10 mil palavras.

Quais são alguns dos elementos gramáticos mais diferentes do Dothraki, ao ser comparado com o inglês – sua língua?

Ele é extremamente diferente do inglês. Por exemplo, o Dothraki não tem artigos como “a” ou “o”. Os substantivos e pronomes têm quatro casos: nominativo, acusativo, genitivo, ablativo, e alativo. Também há um tempo que chamo de “futuro sintético”, enquanto o inglês usa um verbo auxiliar para expressar a ideia de futuro. Outra coisa interessante é que o verbo do Dothraki é flexionado para exprimir um sentido negativo da palavra, coisa que não acontece no inglês. Há muitos outros exemplos, mas estes são um bom começo.

Você também criou o Alto Valiriano, outro idioma falado em Essos, e disse, em entrevista, que a língua é “quase bonita demais”. Quais são os sons e construções que tornam isso possível? De que forma o Alto Valiriano se opõe aos sons guturais e pesados do Dothraki?

O Alto Valiriano é mais rico em ditongos do que o Dothraki. E enquanto possui uma pegada gutural, o som é mais raro. Gramaticamente, as línguas tem suas diferenças. As duas não tem artigos, mas a ordem das palavras é diferente, com o verbo sempre entrando no final da sentença e adjetivos sempre precedendo o pronome que eles modificam. Valiriano tem amis gêneros e mais inflexões verbais doq ue o Dothraki. Isso torna a linguagem extremamente versátil, mas difícil de aprender também. Acho muito mais difícil traduzir para Alto Valiriano.

Em aulas de línguas estrangeiras, uma das primeiras coisas que aprendemos (normalmente através dos colegas e não dos professores) são os xingamentos. E também gostamos de zoar os gringos que vêm ao Brasil ensinando palavrões em português, como se tivessem outro significado. Você pode nos ensinar a xingar em Dothraki?

Claro! O Dothraki é um idioma abençoado com muitos palavrões. Ifak, por exemplo, é uma palavra que tem o significado de gringo, de estrangeiro. Mas no Dothraki é usado como um insulto. Choyo é uma gíria para “bunda” e graddakh é a palavra usada para fezes, sempre em tom pejorativo. Muitos dos outros xingamentos são óbvios, como gale que significa ovo – mas também a genitália masculina.

Você acredita que o Dothraki pode se tornar tão famoso que fãs dos livros e da série vão começar a aprendê-lo, como no caso do Klingon em Jornada nas Estrelas?

Há várias pessoas que já aprenderam a falar Dothraki – e algumas são realmente boas. Mas eu duvido que a língua se torne tão popular quanto o Klingon. Mas seria bacana se as pessoas começassem a se comunicar assim. Pelo menos eu compreenderia o que elas dizem, já que no caso do Klingon eu não entendo lhufas.

Existe um dicionário online oficial?

Existe um não oficial, que aborda tanto o Dothraki quanto o Alto Valiriano.

Fonte.