Por: Ricardo Daniel Treis | 05/06/2013

Os manifestantes turcos em breve devem se fazer ouvir bem além da Praça Taksim, em Istambul, palco das principais manifestações contra o governo. Em uma campanha para arrecadar fundos, eles conseguiram levantar US$ 92 mil para comprar uma página no “New York Times” ou no “Washington Post” em apenas 24 horas.

O objetivo é publicar um texto defendendo a democracia e pedindo diálogo no país. A campanha “Uma página de anúncio pela democracia turca em ação: OccupyGezi para o mundo” pedia, através de um web site, contribuições para alcançar US$ 53.800. Conseguiram até esta terça-feira a adesão de 1.344 pessoas e um valor acima do esperado.

“Temos o suficiente para o anúncio no ‘NYT’. Obrigado. Por favor, continuem a contribuir e nos digam o que fazer com o restante do dinheiro”, diz um anúncio no site.

O objetivo da campanha é fazer com que o mundo ouça dos próprios turcos o que ocorre no país e lutar pela verdadeira democracia, diz o site.

Via O Globo.


Para quem não sabe da situação lá, tem uma carta circulando na timeline descrevendo os fatos e denunciando a mídia calada. Ela saiu deste blog.

O que está acontecendo em Istambul?
Para meus amigos que moram fora da Turquia:

Estou escrevendo para que vocês saibam o que está acontecendo em Istambul nos últimos cinco dias. Eu, pessoalmente, preciso escreve-lo, porque a maioria das fontes de mídia foram fechadas pelo governo, e o boca a boca e a internet são as únicas formas que restam para explicar o que está acontecendo e pedir ajuda e apoio.

Quatro dias atrás, um grupo de pessoas que não pertencem a nenhuma organização ou ideologia específica se reuniram no Parque Gezi em Istambul. Entre eles, havia muitos dos meus amigos e alunos. A razão era simples: Para prevenir e protestar contra a iminente demolição do parque por causa da construção de mais um shopping no centro da cidade. Existem inúmeros shopping centers em Istambul, pelo menos um em cada bairro! A demolição das árvores estava marcada para começar no início da manhã de quinta-feira. As pessoas foram para o parque com seus cobertores, livros e crianças. Eles armaram as suas tendas e passaram a noite sob as árvores. No início da manhã, quando os tratores começaram a puxar as árvores de cem anos de idade para fora da terra, as pessoas se colocaram entre as árvores e os tratores para interromper a operação.

Eles não fizeram nada além de se colocar em pé na frente das máquinas.

O parque antes da chegada da polícia

Nenhum jornal, nenhum canal de televisão estava lá para relatar o protesto. Foi um black out completo de mídia.

Mas a polícia chegou com os veículos de canhão de água e spray de pimenta. Eles perseguiram as multidões para fora do parque.

Ação da polícia com spray de pimenta

À noite, o número de manifestantes se multiplicou. Assim como o número de forças policiais ao redor do parque. Enquanto isso, o governo local de Istambul fechou todos os caminhos que levam à praça Taksim, onde o Parque Gezi está localizado. O metrô foi fechado, as barcas foram canceladas, estradas foram bloqueadas.

No entanto, mais e mais pessoas se dirigiram até o centro da cidade a pé.

Eles vieram de todo Istambul. Eles vieram de todas as origens, diferentes ideologias, diferentes religiões. Todos eles se reuniram para impedir a demolição de algo maior do que o parque:

O direito a viver como cidadãos honrados deste país.

Eles se reuniram e marcharam. A polícia perseguiu-os com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e dirigiu seus tanques para cima das pessoas que em troca ofereciam comida à polícia. Dois jovens foram atropelados pelos tanques e foram mortos. Outra jovem, uma amiga minha, foi atingida na cabeça por uma das bombas de gás lacrimogêneo. A polícia estava atirando diretamente contra a multidão. Após uma operação de três horas ela ainda está na Unidade de Terapia Intensiva e em estado muito crítico. Enquanto escrevo isto, não sabemos se ela vai conseguir sobreviver. Este blog é dedicado a ela.

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Essas pessoas são meus amigos. Eles são meus alunos, meus parentes. Eles não têm «agenda escondida» como o estado gosta de dizer. Sua agenda está lá fora. É muito clara. O país inteiro está sendo vendido para as empresas pelo governo, para a construção de shoppings, condomínios de luxo, estradas, barragens e usinas nucleares. O governo está procurando (e inventando quando necessário) qualquer desculpa para atacar a Síria contra a vontade do povo.

Acima de tudo isso, o controle governamental sobre a vida pessoal de seu povo tornou-se insuportável afinal. O Estado, sob sua agenda conservadora, passou muitas leis e regulamentos relativos ao aborto, parto com cesariana, venda e uso de álcool e até mesmo a cor do batom usado pelas aeromoças.

As pessoas que estão marchando para o centro de Istambul estão exigindo seu direito de viver livremente e receber justiça, proteção e respeito do Estado. Eles exigem estar envolvidos nos processos de tomada de decisão sobre a cidade em que vivem.

O que eles receberam em retorno é a força policial abusiva e enormes quantidades de gás lacrimogêneo disparado diretamente em seus rostos. Três pessoas perderam seus olhos.

No entanto, eles ainda marcham. Centenas de milhares se juntam a eles. Alguns milhares de pessoas atravessaram a Ponte Bósforo a pé para apoiar o povo de Taksim.

Nenhum jornal ou canal de TV estava lá para relatar os acontecimentos.

A polícia continuou perseguindo as pessoas e jogando spray de pimenta a tal ponto em que cães e gatos de rua foram envenenados e morreram por causa dele.

Escolas, hospitais e até hotéis 5 estrelas em todo o Taksim Square abriram suas portas para os feridos. Os médicos encheram as salas de aula e quartos de hotel para prestar os primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a jogar gás lacrimogêneo sobre pessoas inocentes e abandonaram seus empregos. Ao redor da praça, colocaram bloqueadores de rede para evitar conexão com a internet e as redes 3G foram bloqueados. Moradores e empresas da região disponibilizaram sua internet Wifi pessoal para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram água e comida de graça.

Pessoas em Ankara e Izmir se reuniram nas ruas para apoiar a resistência em Istambul.

A grande mídia continua mostrando a Miss Turquia e “o gato mais estranho do mundo”.

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