Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

“Dizem que sou louco por pensar assim / Se eu sou muito louco por eu ser feliz / Mas louco é quem me diz / E não é feliz, não é feliz / Se eles são bonitos, sou Alain Delon / Se eles são famosos, sou Napoleão / (…) / Eu juro que é melhor / Não ser o normal / Se eu posso pensar que Deus sou eu / Se eles têm três carros, eu posso voar / Se eles rezam muito, eu já estou no céu”.

Por que lembrei, deve estar se perguntando o caro leitor, da “Balada do louco”, velho sucesso da vanguardista e irreverente banda Os Mutantes, que estourou no final dos anos 60, com o trio Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias?

E a resposta é a manchete que li na internet nesta segunda-feira: “Cachoeira passa por avaliação psiquiátrica na véspera de audiência na Justiça”. Sim, aquele Cachoeira dos escândalos de Brasília. A justificativa, segundo as reportagens que li, era de que estão preocupados com o estado de saúde do referido. Tudo começou porque o dito teve um “pequeno surto” após discutir sobre um canal de televisão com outro preso.

O episódio desmascara uma cruel face do Brasil. Somos, ainda, uma país de gigantescas, profundas e, às vezes, irremediáveis diferenças. Gostaria de saber qual seria a resposta do Poder Judiciário ou mesmo do Sistema Prisional se um ladrão pé-de-chinelo tivesse um “pequeno surto” parecido com este.

Não estou, aqui, julgando as pessoas do Poder Judiciário ou do Sistema Prisional. Estou falando do sistema como um todo, mesmo. Embora composto por pessoas.

Estas dicotomias, contudo, não se restrigem ao sistema judiciário ou prisional, ou seus aparelhos. Há certo descompasso entre o que nossos administradores dizem e o que fazem.

Antes, porém, de comentar outros dois exemplos pelos quais eu possivelmente serei crucificado (mais uma vez), quero lembrar um célebre pensamento decorrente da “Oração aos moços”, famoso discurso do jurista Rui Barbosa, que diz que os iguais devem ser tratados igualmente o os desiguais devem ser tratados desigualmente na medida de sua desigualdade.

Infelizmente no Brasil deturparam as palavras de Rui Barbosa (que, em verdade, buscou seus fundamentos em Aristóteles). Bem aos moldes Lei de Gérson ou Lei de Zeca Pagodinho, das quais falei há duas semanas, transformaram tão belo princípio em “uns são mais iguais do que outros”.

E sem menosprezar as desgraças ou alegrias alheias, dois episódios me incomodaram nos últimos meses.

O primeiro foi a vinda do ex-BeatlePaul Mccarteney para Florianópolis. O lorde inglês ficou hospedado num belíssimo hotel em Governador Celso Ramos. Nada demais até aí se não fosse o enorme contigente da Polícia Militar para cuidar da sua segurança. O Governo do Estado vive dizendo que não tem policiais para nada, e, de repente, desloca um número absurdo para cuidar da segurança de um cantor estrangeiro que fez um show particular (sim, porque os valores dos ingressos não eram nada módicos).Reforçar a segurança no entorno do show vá lá, eis que a ladroagem se atiçou toda com essa apresentação. Mas dar uma de segurança tempo integral para a comitiva do artista foi um pouco demais.

O outro caso foi em São Paulo. Quando o filho do cantor Leonardo sofreu o acidente e teve que ser tranferido para a capital paulista houve o acompanhamento de batedores da Polícia Militar durante todo o trajeto para que a ambulância fosse resguardada. Preciso continuar meu raciocínio?