Por: Ariston Sal Junior | 06/05/2014

 

Reprodução/Internet

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A repercussão do episódio da última sexta, 2, no qual os Raimundos pararam um show em Jaraguá do Sul (SC) quando um casal gay foi expulso por se beijar no meio da apresentação, continua com força. O vocalista e guitarrista da banda, Digão, reforçou nesta segunda­-feira que o compromisso da banda é combater o preconceito.

Ele aproveitou e criticou os fãs que só se queixam da nova formação da banda, sem o antigo vocalista, Rodolfo. Em uma nota oficial, postada na página da banda no Facebook, o grupo disse que cumpriu “somente com a obrigação como cidadãos em meio ao debate mundial acerca de todas as formas de preconceito”. Segundo a postagem, é “dever de todos lutar contra toda e qualquer forma de intolerância e discriminação”, seja sobre termos de orientação sexual, raça, religião ou classe social.

Em uma conversa por telefone com o GLOBO, Digão falou sobre o episódio e sobre o que pensa do preconceito que ainda existe em grande parte da sociedade. Ele, que também nesta segunda expôs uma conversa na qual um fã da banda o chama de “hipócrita” pelo Facebook, elogiou a atitude do dono da The Way, onde ocorreu o show, e disse que ainda há muita ignorância na mentalidade do brasileiro.

Como você viu aquele episódio ocorrendo? É normal que a banda, mesmo com o clima quente, não permita brigas em shows.

Foi o Canisso que viu. Duas meninas foram para o canto do palco e disseram que tinham acabado de expulsar dois caras que estavam se beijando. Bateu o sentimento na hora. Não lembro exatamente o que falei, mas era algo como ‘Não quero saber disso em show do Raimundos!’. Não consegui ver se foi gente da plateia ou os seguranças que ameaçaram os dois. Como tivemos que ir embora direto, sem nem voltar ao nosso hotel, não tivemos tempo de apurar exatamente. O dono da casa, o Thiago Mattos, acabou botando os caras pra dentro. A atitude dele foi bem bacana, bastante ousada.

Como foi o conteúdo das reações que vocês acompanharam?

O quanto vi de gente idiota comentando foi assustador. A gente repara quanto preconceito ainda existe. Grande parte deles é viúva, querendo despejar o veneno que já tava ali por outros motivos. Eu deixo pra galera discutir [risos]. Acho que, de certa forma, conseguimos mandar uma mensagem. Ainda mais sendo o Raimundos, que é uma banda “porra louca”, zoa todo mundo.

A ocasião foi inusitada. É um momento para outras bandas se manifestarem contra o preconceito?

[A questão gay] Não é a bandeira do Raimundos, mas falamos sim contra o preconceito. O que fiz foi natural, reagi conforme minha educação. Foi o que aprendi com a minha mãe: a não ter preconceito. Não é minha intenção fazer mídia em cima disso. Mas quando a coisa é séria, mexe com a direito das pessoas, de forma alguma a gente vai permitir que isso aconteça. Não só para os gays, mas também em questões como classe social. Trato bem todo mundo, cumprimento todo mundo da mesma forma. Eu me sinto bem assim. Gostaria que as pessoas fossem assim também.

Vocês receberam o apoio de outros artistas?

Ainda não vimos outros artistas se manifestando. Por enquanto vi muitos amigos pessoais mandando mensagens, postando apoio. Tem gente boa como o Tico [Santa Cruz] que deve falar. Quero que daí surja alguma coisa boa. Não estamos fazendo mídia, nossa agenda está lotada desde muito antes. Mas já que Deus jogou isso no nosso colo, fico feliz em mostrar o que penso.

Via O Globo