Por: Ricardo Daniel Treis | 5 anos atrás

Depois de levantar de uma dessas pernadas que a vida passa na gente, eis a volta à toda na quinta-feira com essa energia:

[youtube_sc url=”http://youtu.be/aWR1h-5EzUo” width=”640″ autohide=”1″]

Na tarde desta terça-feira, entre 15h e 17h, duas crianças invadiram a casa de meus pais e destruíram o que puderam lá dentro. Na saída, carregaram jóias, eletros e notebooks. Flagrados pelo vizinho largaram metade da carga e fugiram correndo. Tudo foi filmado, descobrimos logo mais que um dos responsáveis era vizinho de porta. Idades entre 15 e 14 anos.

O lar é um espaço que consideramos, em essência, inviolável. Ali que você descansa a cabeça no travesseiro à noite, rodeado pelas sensações e boas lembranças do que viveu em dias passados.  A perda com os bens materiais nunca iria se equiparar à emocional, é um choque entrar porta adentro e ver um ambiente tão amado vandalizado daquela forma. O que não era do interesse ou não pode ser carregado foi refugado com desprezo. Não sobrou um item dentro de gaveta, até mesmo os produtos de limpeza da lavanderia foram atirados ao chão ou às paredes (o mesmo fizeram com o que havia dentro da geladeira ou quando defecaram em um dos banheiros). Na noite após o crime podia-se ouvir a zombaria vindo do outro lado da rua.

Para rasgar nossos corações foram preciso dois vândalos e alguns amigos que ficaram do lado de fora vigiando. Eram moleques, nada mais, com idade insignificante para ter noção da violência real que estavam cometendo. Porém fizeram conscientes de crime, e com ódio.

Um dos menores, cuja lei me obriga a preservar a imagem

Um dos garotos, o suposto mentor do ato, já teve 11 passagens por furto. Agora foram 12.

Meus pais não foram a primeira vítima da vizinhança. As casas ao redor estavam sendo saqueadas gradativamente, e nem todos vizinhos haviam prestado queixa – o tal “Já tive incômodo suficiente”. Dada a suposição dos autores e o quanto a figura em questão já havia sido mencionada na DP formal e informalmente, os investigadores tomaram a denúncia como estopim, e partiram para agir no máximo permitido.

Ao ver na rua aquelas crianças sendo carregadas para dentro da viatura ouvimos pedestres comentando a ação policial. “Isso é coisa que se faça?”, “Vão caçar bandido”. Mas os bandidos estavam ali! Eu, meus pais e minhas irmãs não víamos de outra forma. Eram coisas possuídas, violadores que há poucos minutos atrás passaram por nossa porta apontando e rindo, zombando de nossa moral e da impotência do sistema. E a cena provavelmente não era inédita.

Discute-se a maioridade penal, ontem eu queria discutir formas de punição. Essas crianças estavam (e provavelmente continuarão) executando crimes, testando o limite da invasão. O limite não há dúvidas, certamente vai ser uma cena de tragédia. Talvez um senhor vá defender a família e acabe atirando numa criatura dessas; ou uma delas, acuada, acabe acionando um gatilho.

Eu com 34 anos e meu pai com 62, homens, fomos atropelados por um garoto de 15 montado em um sistema que pouco favorece as vítimas. O mais fichado de uma turma que começou com dois elementos e logo tornou-se uma rodinha de cinco. Fumavam maconha no banco da rua e na porta de casa, agregando e motivando a cada dia novos candidatos a bandido. Nas fotos no Facebook o grupo é “ViDa LoKa”, porém na delegacia a cena de choro beirava o ridículo. Naquela hora a graça acabou. Pediam desculpas e chamavam pela mãe. “Não sabia que a casa era sua”. Mais de um deles se urinou. Tratavam minha mãe por “tia”. Deduraram cúmplices. Entregaram compradores. Deram o nome de fornecedores.

Ontem a DP Civil de Guaramirim agiu exemplarmente, e dentro da lei conseguiu repreender a ação do grupo. Interceptadores foram presos e uma grande quantidade de material foi recuperada. Ver criança entrando em viatura não é uma cena bonita, mas acreditem em mim, ver marginal passar impune é ainda pior.

Hoje os menores estão na rua novamente, mas não passaram sem uma chacoalhada. Preferimos acreditar que possam melhorar de agora em diante, mesmo assim por um bom tempo ainda vai ser difícil pousar a cabeça no travesseiro com a mesma tranquilidade.

Um sistema ineficiente vandalizou nosso lar.


A notícia sobre o fato, publicada no site do 14ºBPM.