Por: Ricardo Daniel Treis | 2 anos atrás

Artigo por André Julião, para o site Viaje Aqui.

À medida que ganho velocidade, o calor diminui. O incômodo causado pelo suor se dissipa com o vento que bate no rosto. Pedalar ajuda a organizar as ideias, refresca os pensamentos. É um exercício que minimiza minha condição de forasteiro. Demorei a perceber isso. Para entender um pouco melhor das coisas do trânsito e da geografia locais, até aquele dia eu insistia em andar a pé, atônito em meio ao rush de duas rodas e a algaravia de assobios, o código usado pelos ciclistas para avisar aos transeuntes de sua passagem. Depois de sofrer por dias com o clima quente, o raciocínio traindo-me e o corpo sem querer sair debaixo do chuveiro frio, começo a me sentir confortável. Por causa da bicicleta.

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André Julião, autor da matéria

O veículo faz parte da identidade de Afuá, no noroeste da ilha de Marajó, por cujas ruas pedalo cada vez mais rápido. Nessa “Veneza marajoara”, a bicicleta é uma resposta criativa a uma limitação da cidade – ou uma vantagem, a depender do ponto de vista. Como foi erguida sobre plataformas de madeira, de forma a não ser inundada pelas cheias dos três rios que a cercam, Afuá provavelmente é o único município brasileiro onde carros e motos são proibidos em toda sua extensão. Isso a tornaria a única cidade livre de emissões de gases de carbono, não fosse a energia elétrica gerada da queima de óleo diesel. Não é difícil crer que, à exceção dos bebês, cada um dos 35 mil habitantes de Afuá tenha uma bike.

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O açaí, que brota de uma palmeira nativa, é a base da alimentação dos moradores da cidade paraense de Afuá. A distribuição do fruto, claro, é feita por bicicletas

A bicicleta é protagonista da existência de um afuaense desde seu nascimento. Pelas ruas, a cena é comum: uma mãe carrega seu bebê no colo enquanto, ela mesma, é conduzida na garupa. Um garoto de 4 anos anda de pé ali atrás, apoiando-se no ombro do pai ou do irmão mais velho. Aos 7, já pedala modelos grandes para ir à escola ou ao jogo de futebol. Na adolescência, a bike o conduz a passeios com a primeira namorada. Adulto, segue para o trabalho ou para casa até sair para pedalar com a mulher grávida e, no futuro, com o filho, que, por sua vez, aos 4 anos…

Hora do rush: por um tempo motos foram permitidas, mas logo vetadas pelo risco de atropelamento e desgaste das passarelas de madeira. A cada eleição, os políticos prometem vias mais duráveis, como esta, de concreto

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