Por: Ariston Sal Junior | 4 anos atrás
Torres Igreja da Matriz - Jaraguá do Sul Foto Sal

Torres Igreja da Matriz – Jaraguá do Sul
Foto Sal

Da janela consigo ver os relógios da igreja matriz. Faz anos que os vejo, e me interesso por eles desde sempre. Por gostar de relógios em geral, noto que os de igrejas têm algo em comum: nunca estão certos!
No caso de Jaraguá, cada uma das duas cúpulas tem o seu e nenhum dos dois marca a hora certa. Teve uma época que pensei que um marcaria o horário local e o outro o de Roma, a sede da “matriz”. Movido pela curiosidade fui buscar conhecimento sobre o fuso horário e descobri que o problema era mesmo o relógio da esquerda, apesar do da direita sempre estar quinze ou vinte minutos adiantado.
Como esse parece ser um problema que afeta as igrejas em geral, noto que ninguém mais se guia por eles, afinal nenhuma missa conseguiria respeitar seus horários tradicionais. Imaginem nessas cidades de interior, quando as pessoas se reúnem na praça da matriz para passarem juntas o ano novo ou uma festividade? Enquanto nos outros cantos da cidade os fogos de artifício já estariam espocando, o pessoal que estivesse sendo guiado pelo relógio da igreja teria que esperar, de um lado quinze minutos ou mais, ou de outro, cinco horas para comemorarem a data festiva.
Igrejas não deveriam ter relógios, não combinam com elas. Sua arquitetura antiga, na maior parte das vezes, representa justamente essa luta contra o tempo, um desejo de querer mantê-lo aprisionado. No interior dessas catedrais, assume-se um silencio respeitoso e promessa de atitudes que diferem em muito da luta pela sobrevivência que ocorre fora de seus portões.
Imagens atemporais, vitrais, pinturas de tempos antigos nas paredes e sacerdotes com roupas que há séculos mantem-se quase sem mudanças. Buscando, quem sabe, tirarem as pessoas dessa relação desenfreada com o tempo. Como se só no passado alguém tivesse dito a “verdade”. Além do medo que a vida acabe sem que se tenha conseguido encontrar a felicidade, que, segundo consta, vale uma pulseira com acesso.
Relógios mostram, na velocidade do ponteiro dos segundos ou dos números digitais, a impermanência das coisas e as igrejas buscam justamente o contrário. Em suas missas, professam ensinamentos de muitos séculos atrás que até agora não foram postos em práticas pelos seus adeptos, tornando seu discurso quase uma utopia. Não que seu conteúdo não seja bom, mas porque difere em muito da vida real, onde os relógios funcionam corretamente, marcando as muitas horas de trabalho e as poucas de descanso e lazer.
Tudo o que pregam necessita para ser aplicado para que se mude essa relação com o tempo e deve ser por isso que as badaladas de seu sino sejam mais confiáveis. Por aqui, o sino bate religiosamente ao meio dia e às dezoitos horas para a mensagem da Ave Maria, enquanto que pelo relógio da esquerda já deveríamos estar todos dormindo ou almoçando, sei lá!
Igrejas foram feitas para sinos e não relógios, sinos são mais sérios, confiáveis e seu design resiste há tanto tempo quanto as crenças e dogmas que defendem ao chamar seus fiéis. Relógios podem ser de parede, de bolso ou pulso; são coloridos sóbrios ou extravagantes. Uns tem ate um passarinho que anuncia as horas, outros badalam até com alguma sobriedade, mas longe do som e da mística do original.
Deve ser por isso que os relógios quase nunca funcionam direito nas igrejas. Deus, claramente, prefere os sinos.
Por Eduardo O. Carvalho