Por: Sistema Por Acaso | 2 anos atrás
tinder

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A primeira vez que ouvi falar do Tinder (marca registrada), não entendi ao certo como funcionava. Depois de entrevistar muita gente, continuo sem entender. Isso não importa, o que interessa mesmo são as histórias que surgem através do aplicativo, no qual você define faixa etária e distância, e aparecem as opções para você conhecer alguém. Quando duas pessoas curtem-se mutuamente, abre-se uma janela para conversa (match), daí pra frente só Deus sabe, ou melhor, às vezes até “Ele” duvida. Já teve gente comprometida que esqueceu-se de desativá-lo quando retornou de viagem e a casa caiu quando flagrado e entregue por uma vizinha metida.

Conheço uma guria que desenvolveu um contato em cada cidade do Vale do Itapocu e com um deles foi assim:

– E você faz o que Ideraldo?

– Sou agente penitenciário, fui recentemente transferido aqui para Barra Velha, nem conheço a praia ainda. Tu vais estar em Jaraguá neste finde?

– Sim!

– Poderíamos passar juntos, neste estou de folga.

– Pode ser.

– Teu fogão é bom?

– Acho que é, por quê?

– Porque eu gosto de cozinhar, poderíamos fazer uma jantinha a dois.

– Hummm… Já gostei!

– Posso te pedir um favor?

– Claro, diga…

– Tenho que lavar minhas camisas do uniforme, posso levá-las?

– Pode sim, Ideraldo!

************

Depois daquele esperado finde romântico, ela recebeu telefonema de uma amiga que queria saber de tudo, com detalhes:

– Oi “migs”, como foi com o gatinho?

– Foi uma loucura guria.

– Sério? A arma dele era grande? Kkkkk

– Tô falando sério. Ele mal tinha largado a mala e já pediu cerveja.

– E tinhas?

– Não! Já havia comprado antes as coisas do jantar no mercado, justamente pra não sair com ele por aí e queimar meu filme com os outros “boys”.

– E aí?

– Ele desceu junto no mercado e ainda colocou o braço por cima de mim.

– E tu tiraste?

– E tinha como?

– Credo!

– Voltamos pra casa, e ele não se mexeu pra nada! Pediu a senha da internet e ficou tomando cerveja. Cozinhei sozinha. Onde estava o cara gourmet? Não vi!

– Que fria, hein, migs?

– Comeu umas seis vezes. Deu só “umazinha” depois e dormiu no início do filme que ele mesmo tinha sugerido. Foi pra minha cama e ficou lá, estaqueado como se fosse Jesus, quase não consegui deitar. O cara roncava muito.

– Tenso, hein?

– Ele acordou cedo. Achou ruim que não levantei. Também ele dormiu muito antes né?

– Bah…

– Falou por telefone com um tal de “Zoreia”, pois ouvi quando o cara se identificou. Saiu apressado lá de casa, e quase se esqueceu dos uniformes que eu tinha lavado e passado. Fiquei desconfiada quando não quis a carona até a rodoviária, como tínhamos combinado.

– E aí?

– Fiquei apreensiva e fui olhar se achava algo nos bolsos de uma bermuda que ele esqueceu e aí entendi tudo.

– O quê?

– Tinha um documento, com a foto dele e outro nome. Chequei as informações, o documento era verdadeiro e ele está cumprindo pena por latrocínio e está na condicional.

– Que horror!

– Ainda por cima, lavei a roupa de outra pessoa, que ele trouxe pra dar legitimidade ao golpe.

– Poxa, pensou em tudo!

– O que ele mais teve foi tempo para pensar, né?

– E agora, corres risco?

– Entreguei tudo na polícia. E amanhã sai o resultado.

– Resultado do quê?

– Do exame de sangue!

– Migs, você não se preservou?

– Não, ele tinha a cara boa… E eu que pensei em pedir pra ele trazer algemas pra gente “brincar”! Ainda bem que não o fiz, estaria algemada até agora.


Autor: MARCELO LAMAS, escreve há 20 anos. É o autor de “Indesmentíveis” (Camus, 2015), “Arrumadinhas” (Camus, 2013) e “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora” (Design, 2009).

marcelolamas@globo.com