Por: Ricardo Daniel Treis | 4 anos atrás

Gregorio Duvivier dá o tom de como as coisas são e todo mundo esquece:

A FAMÍLIA BRASILEIRA
Maio de 2034
Duas décadas após o célebre beijo gay de Mateus Solano e Thiago Fragoso em “Amor à Vida”, as novelas finalmente deram outro passo significativo. Ontem, pela primeira vez na história, um personagem fumou um baseado na Rede Globo.

Foi na novela “Paixão pelo Pecado”, de João Emanuel Carneiro. A grande novidade chocou os conservadores. “É a ditadura do baseado”, clamou o líder da bancada evangélica. O que mais chocou a opinião pública foi o personagem “maconheiro” não morrer logo após fumar maconha.

Associações cristãs estão processando a Globo por calúnia e exigem que o personagem morra para dar exemplo. O autor disse que o personagem irá morrer, mas não de maconha.

Agosto de 2057
Mais de vinte anos após o primeiro baseado, a Rede Globo volta a chocar a opinião pública. Ontem, em “Flerte Fugaz”, nova novela das onze, pela primeira vez um personagem fez um aborto e não se arrependeu.

Jamilly, interpretada por Marina Ruy Barbosa, fez um aborto seguro e saiu da clínica com um sorriso no rosto, aparentando estar satisfeita. Gabriel Esteves, autor da trama, afirma que não é sempre que o aborto é sucedido de desespero e vontade de se matar.

Marina Ruy Barbosa se pronunciou contra o “aborto sem arrependimento”. “Nunca fiz um aborto, mas, se fizesse, me arrependeria”, afirmou em seu Twitter. Conservadores especularam que a cena teria sido financiado por grandes entidades abortivas. O Projac amanheceu pichado com os dizeres “é a ditadura do aborto”.

Janeiro de 2081
Em sua primeira novela exclusivamente para a web, a Rede Globo inovou. Em uma cena entre jovens, um deles pronunciou a palavra “Google”. É a primeira vez que a Rede Globo usa o termo, apesar de já estar dicionarizado desde 2015.

Antes do episódio personagens de novela se referiam ao Google como um “site de busca”. Conservadores indignados afirmaram se tratar de um merchandising disfarçado, já que a emissora faz parte do grupo Google.

O autor Manoel Carlos, último remanescente da velha guarda da emissora, pediu desculpas ao público conservador mas afirmou se tratar de uma tendência. “A novela é um retrato da vida, e a vida está cheia de marcas”. Em seguida, afirmou estar estudando usar as palavras “Facebook” e “YouTube”, ao invés do costumeiro “redes sociais”. Críticos afirmaram se tratar de um lobby das grandes corporações para a dominação mundial.

“A família brasileira não está pronta para isso. É a ditadura do Google”, afirmou o cardeal em seu Twitter.

Gregorio Duvivier é ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

E àqueles que querem continuar a discussão quanto ao ocorrido na novela, lá no Já Matei por Menos também tem um artigo bacana pra ler e abrir perspectiva. Cito:

Os gays que se beijam na novela são dois atores heterossexuais, brancos, lindos, magros, discretos, masculinizados, ricos, cisgêneros que dão uma bitoquinha chocha e assexuada. (…)Produtos culturais que vendem a ideia de igualdade e homogeneidade não estão ensinando a sociedade maior a respeitar o diferente, estão ensinando o diferente a se moldar de um jeito que ele possa ocupar um espacinho delimitado na sociedade maior, que faz um grande estardalhaço para mostrar como é boa de alma por recebê-lo no quarto de hóspedes da vida em sociedade.

Leia na íntegra, é bem legal.