Por: Ariston Sal Junior | 4 anos atrás

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Clones são um conceito antigo na ficção, e bastante usados na agricultura, mas a dificuldade em sua produção é diretamente proporcional à complexidade do organismo. Clonamos batráquios, peixes, organismos unicelulares e comentaristas de YouTube desde os anos 50, mas mamíferos são bem mais problemáticos.

O primeiro clone de mamífero utilizando células somáticas — ou seja, uma célula do corpo, não um embrião induzido a se dividir — veio só em 1996, com a ovelha Dolly. De lá pra cá um monte de espécies foram clonadas, inclusive raças de vacas ameaçadas de extinção, clonadas pela primeira vez no mundo, no Brasil, 2005 pela Embrapa, mostrando que dá pra fazer ciência de ponta aqui, se você demitir o datilógrafo e investir em pesquisa.

O próximo passo lógico, inevitável e questionável por muitos é a clonagem humana. Não é difícil imaginar que o primeiro clone humano será uma cópia do filho de algum casal muito muito rico, que tenha morrido cedo de forma traumática. Todos os argumentos de que personalidade tem tantos componentes genéticos quanto ambientais, as explicações de que vários fatores aleatórios podem mudar características físicas do clone não adiantarão. O casal irá querer o filho de volta e os cientistas, de olho na verba, toparão.

Curiosamente a idéia de que um clone é só uma aproximação foi mais bem explorada na ficção do que na vida real. É um dos pontos centrais do excelente Terra Imperial, de Arthur Clarke. Ele também profetiza o smartphone e a internet mas são detalhes. Na história os protagonistas são clones, pois o patriarca da família tem um gene que garantiria que um filho natural herdasse uma doença fatal. Assim pai filho e avô são, geneticamente clones, mas com personalidade e gostos bem diferentes.

No livro a clonagem humana, mesmo legal, é eticamente questionável, como é hoje, mas será sempre assim? A reprodução in vitro quando surgiu foi amplamente criticada, inclusive pelo Vaticano. Houve gente garantindo que bebês de proveta eram uma afronta a Deus e as crianças surgidas da técnica não teriam alma. Hoje é algo comum e corriqueiro.

Clones podem acabar se tornando uma forma cara e trabalhosa de produzir gêmeos idênticos de idades diferentes.

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As palavras de busca pro Google são “trigêmeas gauchas” e “playboy”. De nada.

Por outro lado há gente pensando a sério (ok, nem tanto) em clonar humanos falecidos de grande importância. Isso já foi tentado no passado, e nem falo do projeto de clonar grandes líderes austríacos no interior do Brasil. Há até um grupo querendo usar o sangue do Sudário de Turin para clonar Jesus.

Agora a bola da vez é… John Lennon. O “cientista” em questão é um… dentista. Michael Zuk já mostrou seu questionável bom-senso ao comprar um dente de John Lennon por US$ 33.600,00. Como o dente contém DNA, em teoria é possível clonar o Beatle. O dentista já está fazendo até planos de como criará o bacurinho.

JOHN

Ele quer que Lennon II, que seria “criado como um filho” tenha aulas de violão, mas será mantido longe de drogas e cigarro. Coisas que não tiveram influência nenhuma nos Beatles, você sabe. Só que o interesse não é só pelas habilidades artísticas do rapaz. Michael Zuk acredita que o clone de John Lennon terá direito a uma parte dos bens do Beatle.

Nunca li nada sobre isso, nem sei se já foi discutido, mas acho a clonagem de um ser humano menos improvável que ele ganhar na Justiça parte da herança.

O talento real é genético. Não se cria um Mozart ou um Pelé, mas o talento é apenas um componente. Temos uma quase infinita série de pequenas experiências que nos fazem o que somos hoje. Mude uma e tudo desmorona como uma série de dominós. Seguimos por uma linha temporal alternativa, e Biff comanda Hill Valley. Lennon teve uma infância péssima. Se a clonagem em si é eticamente questionável, replicar as experiências ruins para proporcionar ao clone um ambiente semelhante ao original é moralmente inaceitável.

Esperemos que clones famosos nunca se tornem uma realidade. Se bem que Arthur Clarke (sempre ele) já pensou nisso também. Em As Fontes do Paraíso há um trecho onde a sonda alienígena que está estudando a Terra manda a seguinte mensagem:

“04 de junho de 2069, 07:59. Mensagem 9056, sequência 2. Sideronauta para Terra:

Não consigo distinguir claramente entre suas cerimônias religiosas e o comportamento aparentemente idêntico nas funções esportivas e culturais que me transmitiram. cf. principalmente Beatles, 1965; Final da Copa do Mundo de Futebol, 2046; e a apresentação de despedida de Johann Sebastian Clone, 2056.”

Acho que fora as questões éticas envolvidas, há um risco muito maior que precisa ser considerado.

Vai que dá certo o projeto, o cara se anima e resolve clonar a Yoko Ono.

Fonte: NME.
Texto: Carlos Cardoso