Por: João Marcos | 1 ano atrás

Post publicado originalmente em 23 de abril de 2015

Essa semana a nostalgia bateu forte por aqui lembrando os rolês da juventude (apesar de eu estar longe de ser considerado um cara velho), e veio a constatação que nas rodas com qualquer bom guaramirense, seja de criação ou nascimento, é impossível que não tenha indivíduo que jamais tenha ouvido falar ou ido no Curupira Rock Club. Mas como as pessoas estão falando cada vez menos dele, achei mais que válido a gente trazer alguns fatos pra vocês aqui num post.

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Lugar icônico, é tanto mistificado por preconceituosos (alguns inclusive nunca pisaram lá, mas fazem questão de tecer comentários) quanto amado por quem já foi (e coleciona histórias daquelas noites de sábado ou tardes memoráveis de domingo).

Pra quem acha que o lugar era algo “pequeno” ou pouco conhecido, tenho o prazer de dizer que está redondamente enganado. Assim como o personagem que exibe em sua logo, o Curupira se tornou uma lenda nacional dentro de seu cenário. Diversas bandas que hoje são de renome passaram por lá ou começaram carreira ali. O vocalista da Dead Fish, Rodrigo, é um que já citou diversas vezes o Curupira em entrevistas, falando da magia e da atmosfera encontradas naquele palco. Vê só:

Do carinho das bandas, lembro-me também da vez com o show da banda carioca Moptop. Os caras se atrasaram umas duas horas, pois no mesmo dia haviam acabado de gravar o Altas Horas na Globo… mesmo assim emendaram a viagem direto pra Guaramirim, tanto em respeito a galera que tinha comprado ingresso quanto por estarem empolgados por ser a sua primeira vez na cidade.

Outra que deixou marca é a Cansei de Ser Sexy. Caso você não os conheça, ok, sem problemas… Eles fazem muito mais sucesso fora do país do que por aqui. Mas antes de embarcarem em 2007 para a turnê que sacramentou o sucesso internacional deles, adivinhem qual foi o último lugar que tocaram no Brasil? Isso ae: Curupira Rock Club.

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Não achei nenhuma do show do CSS mas, vai essa aí dos Garotos Podres pra ilustrar a vibe do lugar

Do Curupira eu poderia ficar horas aqui citando histórias que passei por lá, ainda mais se incluir as de amigos mais “vividos”, mas isso vai ficar pra outro post – tem um “Curupira Facts” que está entrando no forno e sai em breve pra vocês. 😉

O ponto aqui é que também não podemos deixar de falar da história do Curupira sem antes trocar uma ideia com nosso querido Kélson que, em parceria com seu amigo Pierre Rasini, marcou tanto o club quanto Guaramirim pela sua parceria, fundamental para colocar de vez o nome do Curupira no território underground nacional.

O bate-papo foi tão bom que preferi “cimentar” o post com ele. Convido-os para lerem a entrevista, sintam agora junto comigo aquele aperto saudosista no peito:

Como começou tua história com o Curupira? De onde surgiu essa ideia de organizar eventos de rock para uma cidade tão pequena como a nossa?
Kélson: Minha história com o Curupira Rock Club começou em meados de 95 quando comecei a frequentar o local para assistir aos shows. Naquela época estava começando a ensaiar com banda e a vontade de ter uma aumentava cada vez mais na medida que eu assistia aos shows. Era um incentivo.  De frequentador assíduo desde 95, a tocar em shows a partir de 97 (com minha banda Fly-X), produzi meu primeiro show lá alugando o local com o dono,  Ivair, em 1998. Produzia shows esporádicos de 1998 à 2004, quando, no ano de 2005, nasceu uma forte parceria que jamais esquecerei. Eu e meu melhor amigo, meu “irmão”, Pierre Luis Rasini, decidimos alugar o Curupira.

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O proprietário Ivair Nicocelli concordou e alugamos o local por cinco anos. Nossos planos eram profissionalizar mais o lugar, trazer grandes bandas do cenário underground brasileiro e gringo. De 2005 à 2008 foi o que aconteceu. Os maiores shows e públicos da história do clube aconteceram naquele período. Não há nenhum lugar que se compare ao clima e atmosfera que a gente encontrava lá.

Qual foi o show com maior público que rolou no Curupira?
Kélson: Foi produzido em parceria com Pierre Luis Rasini quando trouxemos a banda de Black Metal da Grécia, Rotting Christ.

Como era o único show em Santa Catarina, atraiu muita gente vindos de SP, PR, SC e RS. Vendemos todos os ingressos que o local comportava. Foram 500 ingressos. Como os ingressos já haviam sido todos vendidos de forma antecipada, muita gente foi tentar ingressos na hora. Imagina-se que ficaram duzentas pessoas sem ingresso. Um show que repercutiu bem, várias revistas especializadas em metal vieram de diversas partes do Brasil cobrir o evento. Este foi, sem dúvida, o maior público da história do Curupira Rock Club.

Pra você qual o show mais bizarro? 
Kélson: Os shows mais bizarros e divertidos eram sempre da “banda” OS LEGAIS. Quando anunciavámos a agenda de shows do Curupira, o proprietário do local, o querido amigo Ivair Nicocelli, ao ver “Os Legais” escalado, já comentava: “Ix, lá vem isopor! Eles fazem muita sujeira!”. Quem conheceu Os Legais sabe do que estou falando, dos shows antológicos que proporcionaram e da quantidade de isopor que eles traziam para quebrar no palco durante sua apresentação. O único problema era fazer a limpeza no dia seguinte.

Tenho que me meter aqui entre a entrevista pra comentar de um evento em especial desses caras. Realmente quando Os Legais tocavam no Curupira o negócio era único… além dos isopores que eles levavam apenas para quebrar na galera, teve uma vez que eles saíram tocando pra área externa do clube. Geral foi indo junto e quando nos demos conta, uma galera estava dentro da lagoa junto com a banda, hahahaha! 

E o Bananeira cara, saudades?
Kélson: O Marcos Klein “Bananeira” era um cara muito querido por todos, figura ímpar, folclórica na história do Curupira. Assíduo nos shows, toda a banda queria que ele estivesse presente, e um dos pontos altos da noite era quando o ele subia e ficava de pernas para cima, equilibrando-se, literalmente “plantando bananeira” no palco. Era ovacionado pelo público. Marcos foi uma lenda e faz muita falta nos shows.

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Foto: Divulgação

Qual foi o pior show que vocês já trouxeram? Tipo, gastaram maior grana, botaram os caras pra tocar e baaah era uma furada.
Kélson: Sinceramente não lembro de um show de grande investimento que tenha sido ruim. Uma decepção foi ter anunciado ingressos, cartazes e propaganda para show da banda punk paulistana “Inocentes” e, faltando uma semana para o show, tinham sido vendidos apenas 15 ingressos. Como o show era muito caro, decidimos pelo cancelamento.

Porque você acha que o Curupira era/é tão mistificado e sofre tanto preconceito?
Kélson: Ao meu ver é por falta de informação. As pessoas deixam-se influenciar por “eu ouvi falar que…”, “me disseram que lá no Curupira acontece isso e aquilo”, mas nunca foram lá para tirarem as próprias conclusões. Cansei de ver pessoas que depois de irem pela primeira vez mudaram de opinião. “Nossa, se eu soubesse que era tão legal assim já teria vindo antes. Curti muito o lugar, vou vir sempre que possível!”.

Quantos shows vocês produziram por lá?
Kélson: Difícil lembrar o número exato! Levando em consideração que meu primeiro show produzi em 1998, intercalando com exporádicos até 2004. O número aumentou muito com o nascimento da parceria com o meu melhor amigo, Pierre Luis Rasini em 2004/2005 até 2007.

Abaixo, alguns dos principais shows produzidos em parceria com ele, entre inúmeros outros com bandas gringas e brasileiras:

– Rotting Christ [Grécia]
– Rattus [Finlândia]
– See You In Hell [República Tcheca]
– Kuolema [Finlândia]
– Força Macabra [Finlândia]
– Vomit For Breakfast [França]
– Kaeng! [Alemanha]
– Dog Soldier [USA]
– Os Replicantes [RS]
– Garotos Podres [SP]
– Matanza [RJ]
– Autoramas [RJ]
– Cansei de Ser Sexy [SP]
– Wry [SP]
– Rock Rocket [SP]
– Wander Wildner [RS]
– Walverdes [RS]
– Relespública [RS]
– Grenade [PR]
– Magaivers [PR]
– Mukeka Di Rato [ES]
– Carbona [RJ]
– Monno [MG]
– Claustrofobia [SP]
– Bandanos [SP]
– Zefirina Bomba [PB]
– Garage Fuzz [SP]
– Dead Fish [ES]


Mano! Que animal. Demais relembrar desses momentos.

Pra quem quer conhecer um pouquinho mais (ou ter ideia do que é de fato o Curupira) tem um documentário muito bacana abaixo, que vai mostrar a história desde a concepção da casa. É demais:

A cena ainda sobrevive (mesmo que respirando por aparelhos), mas ela ainda está aí!