Por: Raphael Rocha Lopes | 5 anos atrás

É muito comum ouvirmos falar de cursos de oratória. Há sempre a natural e louvável preocupação de sabermos nos comunicar, nos manifestar, de falarmos de forma que possamos ser mais bem compreendidos, com uma boa locução e bons modos de expressão. E, na dúvida, de aprendermos tudo isso através de aulas ou seminários.

E nesse mundo de abominável fast food (não só por estar em inglês, mas porque nos tolhe o sagrado tempo da refeição), do qual volta e meia também sou vítima, onde as informações são despejadas vinte e quatro horas por dia, via televisão com duzentos canais, rádios, jornais e a onipresente internet, quase todos estamos cotidianamente com pressa.

Respondemos a tudo e a todos imediatamente ou quase imediatamente, sem sequer ouvirmos adequadamente o nosso interlocutor ou mesmo o nosso próprio cérebro ou consciência. O nosso Grilo Falante anda mudo ultimamente.

Ou seja, precisamos urgentemente de cursos de escutatória. Cursos de oratória já temos aos borbotões. São necessários, agora, de meticulosos cursos de escutatória. Temos que aprender ou reaprender a escutar, a ouvir, a refletir, a calar, a pensar antes de falar, antes de responder, antes de retrucar, antes de discordar, antes de reclamar.

Não estamos no velho oeste dos filmes americanos de caubóis, onde o dedo mais rápido do gatilho servia para garantir a própria sobrevivência. É preciso diminuir a velocidade, parar um pouco, saborear os próprios pensamentos. É necessário realmente entender o que nosso interlocutor quer nos dizer em vez de precipitar as respostas antes de ele terminar de falar. Pressa para que?

Afinal, que mania mais feia é essa que criamos de adivinhar o que os outros estão nos dizendo antes de terminarem de falar o que querem? E isso está contaminando as crianças, os adolescentes e os jovens. Nas salas de aula se percebe isso muito claramente. O que são esses alunos impertinentes que concluem as falas dos professores de forma precipitada normalmente errando o raciocínio? E que simplesmente não sabem o que responder quando são verdadeiramente indagados?

Cursos de escutatória, por favor!

Não quero aqui dizer que temos que ser lerdos. Gente lerda é igualmente irritante. E muito menos que os alunos não questionem! Nosso raciocínio e nosso pensamento têm que ser rápidos. Isso se alcança com leituras, exercícios, palavras cruzadas, sudokus, quebras de rotinas, diversão e ócio. Porém, não significa que não devemos respeitar o que os outros falam. Sim, porque quando precipitamos as respostas, falamos sem pensar ou refletir, estamos simplesmente desrespeitando as pessoas que nos dirigem a palavra e de nós querem alguma resposta coerente e pensada. Até repensada, se for necessário. Ninguém precisa ter respostas instantâneas o tempo todo. Até porque pessoas cheias de certeza, e imediata certeza, sempre me trouxeram preocupação.

Voltando ao velho Ernesto Sabato, lembro que não praticamos mais a arte de contemplar, de passear sem pressa. Pego-me surpreso quando estou de carona no carro dos outros passando pelos lugares que normalmente passo dirigindo. Quantas coisas não vejo. Belas ou feias; comuns ou diferentes; tudo acaba me surpreendendo porque percebo que não consigo enxergar quando estou dirigindo, normalmente estressado com a minha pressa ou com a pressa dos outros.