Por: Sistema Por Acaso | 6 anos atrás

O meu relacionamento com a “morte” começou cedo demais. Quando a minha mãe teve as dores do parto, foi um tio da funerária que nos levou pro hospital. Porém, só quando eu já tinha passado dos trinta, alguém do meu círculo mais íntimo veio a falecer, a minha avó. Meus pais tomaram o cuidado de marcar o enterro para um horário bem adiante, de modo que houvesse tempo de pessoas como eu, que estava a 900 km, pudessem chegar. Mas houve estranheza por parte dos presentes na cerimônia, pois eu não apareci.

Eu tinha um contrato apalavrado com a velha, que me liberou do compromisso, pois, logo que começaram a morrer os amigos e parentes contemporâneos, ela passou a tocar no assunto: qualquer hora chegaria a vez dela; da turma do colégio só tinha sobrado ela; e dos fundadores do clube de futebol, ela era a única com vida.

Foi numa visita aqui em SC que conversamos sobre o caso. Perguntei se ela fazia questão que eu estivesse na cerimônia, argumentei que o importante era estar por perto quando a pessoa estivesse viva e que eu, modéstia à parte, nunca me furtara de acompanhá-la nas viagens a trabalho, pois ela vendia roupas à domicílio em lugares remotos. Também fui o seu par em eventos sociais, que não eram poucos. Perdi a conta das vezes que fui o motorista para levá-la para tomar café com as amigas ou que fui buscar as mesmas amigas para tomar café com ela. A minha irmã me substituiu nesta tarefa quando mudei de cidade. E desde sempre, a avó Alice contou com o primo Wellington, este sim, guerreiro, que era o seu acompanhante oficial em eventos fúnebres, conhecesse ele o defunto ou não.

Com bom humor costumeiro, minha avó dizia que levantaria do caixão para me defender, caso alguém cobrasse a minha presença na sua hora final. A propósito, toda vez que eu lhe mostrava alguma novidade ela dizia: “Morrendo e aprendendo”. Até hoje não sei se ela havia entendido mal o provérbio ou se era um trocadilho proposital, por causa das suas nove décadas.

Numa palestra, o biógrafo Ruy Castro comentou que no dia seguinte da morte do Tom Jobim, uma editora americana entrou em contato para contratá-lo. Ele negou o serviço, pois, segundo ele, logo depois de morto qualquer um vira perfeito por um tempo e o biografado ideal é aquele que morreu há pelo menos dez anos, o que seria tempo suficiente para aparecerem todas as histórias que ainda não eram públicas, boas e ruins.

Quando eu morrer não quero velório. Não quero que amigos, parentes, conhecidos e inimigos cruzem histórias e que possíveis verdades e segredos sejam revelados a poucos metros de mim, sem que eu possa inventar uma desculpa.

Só peço que a poesia de Mario Quintana seja escrita e identificada na lápide: “Essa vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E a nossa conta nunca está em dia…”

Por Marcelo Lamas