Por: Ricardo Daniel Treis | 24/02/2014

3-cronicaschroederNa quarta-feira, enquanto o trem atravessava a cidade e a rua Reinoldo Rau ficava completamente engarrafada, alguns espertinhos e seus veículos invadiam a faixa vermelha, a ciclovia, em alta velocidade, para buscar saídas mais rápidas, forçando ciclistas a esperar. “Todos os dias é assim”, disse-me um comerciante. Fiquei realmente indignado (se eu tivesse cabelos, ficariam em pé!), e tentei bater fotos ou filmar, pois as redes socias são uma arma eficaz neste caso. Educação: zero. Cidadania: zero. Respeito: zero. Cheguei em casa, ainda revoltado com a falta de noção dos motoristas, e resolvi tomar uma cervejinha para relaxar. Mais um stress: havia esquecido de comprar Heineken (uma das poucas cervejas puro malte), e só tinha uma Milhol (como apelidei a Skol), que já estava encalhada ali por um bom tempo.  No calor de minha raiva, peguei uma caderneta e fiz uma rápida lista de pequenas revoltas, para ver se eu relaxava um pouco (recomendo, a terapia da escrita é sempre um caminho). Em poucos minutos, três itens tomaram minha caderneta: eis a minha lista de revoltas instantâneas.

1. Bebendo milho: 45% do conteúdo das principais cervejas brasileiras é milho. Nada contra o milho (minha sogra faz um bolho de milho capaz de estancar qualquer revolta), que rende deliciosos suflês e grandes personagens literários, como o Visconde de Sabugosa. Mas vocês não acham que esta informação deveria ser especificada, ali na seção de ingredientes das latinhas ou garrafas? Ao invés do fraudulento “cereais não malteados”, muito bem poderia constar: milho. E tem mais, marcas como Budweiser, Original, Bohemia, Brahma e Stella Artois, produzidas pela Inbev, e que se promovem como “diferenciadas”, também estão nessa lista de 45% de milho. Mais caras, mas com qualidade duvidosa. Esta notícia você não viu na televisão, não foi? Mas garanto que deve ver uma propaganda de cerveja por bloco comercial, não é? Mas uma matéria de página dupla na Folha de São Paulo (será que esqueceram de anunciar na Folha?) escancarou a farsa da cerveja brasileira. Aliás, não sabemos nada deste milho, que deve ser provavelmente transgênico: cadê o símbolo e a letra T nas latinhas? Se 70% das sementes comercializadas no Brasil são transgênicas, obviamente a geladinha o fim de semana é de milho transgênico. O que diria o grande Visconde de Sabugosa sobre isso?

2. Imposto em tudo: o Brasil tem a carga tributária mais pesada entre os países emergentes, mais alta até que Japão e Estados Unidos. Só fica atrás de alguns países europeus, onde o imposto é alto, mas a contrapartida do governo, altíssima. Além de pesada, a tributação no Brasil é também complexa e injusta: ao mirar o consumo, penaliza as faixas de menor renda. Mas pior do que pagar impostos abusivos e não ter direito a educação, saúde e segurança, é pagar 56% de imposto sobre a cerveja, de milho.

3. O país dos carros: o Brasil é o país que regula sua economia pelo combustível e pelo preço dos carros, o que me parece, obviamente, uma piada de mau gosto. Os países desenvolvidos querendo se livrar dos carros, e nós com essa auto-dependência. A prefeitura de Hamburgo, na Alemanha, por exemplo, anunciou no mês passado a sua Rede Verde: que consiste em interligar todos os seus parques e passeios, e ampliar as áreas verdes, para acabar com a circulação de carros na cidade no máximo em 20 anos (sim, lá eles pensam a longo prazo). Ciclovias e passeios para pedestres interligarão todos os principais pontos da cidade. Que beleza, hein? Nada de buzinas, congestionamentos e poluição. E já há alguns anos, a cidade de Nova York adota uma postura de inibir o tráfego de carros: a prefeitura proibiu ou limitou o trânsito de veículos em diversas vias, como Times Square, Madison Square, Sands Avenue, e outras avenidas de grande movimento. O resultado foi uma cidade cheia de ruas feitas para as pessoas, e não para os carros. Enquanto isso, na gigante Jaraguá do Sul, reduziram os espaços de pedestres e ciclistas, e criaram novas faixas de carros, como na ponte Maria Grubba, que liga o bairro Czerniewicz e o Centro de Jaraguá do Sul, onde passei caminhando na quinta-feira e se desse um espirro, cairia no rio, certamente.

Bom, esqueça isso tudo, não quero estragar seu final de semana, mas se te deixei com raiva, faça uma lista, e não deixe de me incluir nela.

Por Carlos Schroeder
Publicada no jornal O Correio do Povo, edição de 22 de fevereiro de 2014.