Por: Ricardo Daniel Treis | 8 anos atrás

    Inferno predito é ir pagar o aluguel e ver na imobiliária o panfleto anunciando uma obra de 10 andares para aquele terreninho baldio ao lado da sua casa. Já encomendei o caixão pra enterrar o sossego.

    Familiarizado com a sinfonia, aguardo os costumeiros atos: descarregamento de carrada, bate-estaca matutino, betoneira velha, martelada no reboco, e, por fim, serra de azulejo. Esse último posso apostar um dente trincado que é algum instrumento de tortura que adaptaram.

    Porém quem diria, apesar de tudo, tamanha zorra ainda não é suficiente pra encobrir a porcaria do rádio à pilha, mantido 16 horas por dia sintonizado nalguma estação mantida pelo capeta.

    Incenso de canteiro de obra é fumo de palheiro. E cigarro Continental. A vizinhança sempre agradece o aroma, que fica gostoso nas peças do varal, uniformemente manchadas de pó de cimento e tijolo serrado. Já ví vizinha soltando lágrima ao olhar pras cortinas.

    E obra terminada, tem quem ache tudo voltará ao normal. Esses são os que esquecem que um prédio novo traz vizinhos novos. Então dá-lhe cachorro, filho ruim e briga de madrugada. E quando você acha que não tinha como ficar pior, descobre que o salão de festas do prédio vizinho acabou apontado pra tua janela. Não é de se comprar um rifle?