Por: Ricardo Daniel Treis | 1 ano atrás

Era domingo, e a família tava de bobeira depois do café, conversando em modo random. Aonde começou o assunto, não sei, mas uma hora minha mãe veio com um causo triste, “daquele cachorro que fica no cemitério de Guaramirim em cima da lápide do dono… Não sai de lá por nada”.

Parei na hora. Pensa que coisa louca: contam lá na cidade que tem esse cachorro que acompanhou o velório e o enterro do dono, e que desde então passa todos os dias em cima da lápide dele, como que fazendo companhia ou cuidando dele. Diz a lenda que a família já havia levado o bichinho de volta pra casa algumas vezes, mas que ele insistia em ficar no cemitério.

Na sala, todo mundo assim:

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“O catiorríneo…”

Anotei a pauta, e a visita rolou quatro dias depois. Cheguei lá meio que na expectativa, com uma localização aproximada da lápide rascunhada num mapa mental. Pensem no choque quando desembarquei do carro e deparei com a cena abaixo:

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“CARACA, O CÃO!”

O Sal tava comigo na ocasião, ele ficou igualmente arrepiado… Cheguei perto do bichinho e bati mais umas fotos, super modelo ele:

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Foto: Ricardo Daniel Treis

Nesse momento, 50% do conto estava comprovado, ou seja: havia um cachorro que ficava sobre um túmulo no cemitério. Mas de onde ele veio? Quem era o antigo dono dele? Pois é, senta ai que tem mais história, e ela começa com esses dois distintos cavalheiros abaixo.

Apresento-lhes Srs. Moacir de Souza e Jair Zoz, trabalhadores do local há mais de 10 anos, tutores da cadelinha chamada Flor.

Srs. Moacir (esquerda) e Jair

Srs. Moacir (esquerda) e Jair, contando das manias de Flor. Foto: Ricardo Daniel Treis

“Sêo Moacir, sabe dessa história do cachorro que vive no cemitério porque não abandonou o dono?”. A resposta foi uma negativa. “Não, não… Essa ai é a Flor, ela é nossa. Apareceu aqui há uns dois anos atrás, assustada, parecia machucada, então começamos a cuidar dela”.

Jair entrou na conversa logo depois que soube do assunto, e assim, por ambos, soubemos de tudo.

Flor andava pelos matos do cemitério, toda arredia. “Parecia que foi mal tratada pelo dono”, disse Jair. Vendo o bichinho e percebendo sua mágoa, passaram a se aproximar com comidinhas e petiscos, e aos poucos conquistaram a amizade. “Mas se você chegar meio perto, ela ainda sai, desconfiada”. Hoje eles alimentam e cuidam da cadelinha, que adotou o local.

Jair disse que vez ou outra Flor lhe acompanha até em casa, onde ganha jantinha e tem uma cama quente. “Mas se trancar o portão ela fica nervosa”, confidenciou.

Óin que queridinha... Foto: Ricardo Daniel Treis

Óin que queridinha… Foto: Ricardo Daniel Treis

Então em resumo – e história que fiz questão de confirmar três vezes com eles -, o fato é o seguinte: Flor apareceu no cemitério, ganhou atenção de duas pessoas carinhosas e até hoje retribui a amizade fazendo companhia para eles. Ela fica sobre os túmulos, sim, mas é geralmente no lugar mais próximo à administração do local, por isso muita gente achou que era uma lápide só.

“E o nome dela, daonde veio?”, perguntei ao final. “Ah, uma vez o Jair tava carregando as flores velhas lá pra trás no carrinho, e ela ia junto. E sempre que voltava, ela trazia junto uma flor na boca. Dai ganhou o nome.” 😀

Testemunhem então a lenda urbana que, na verdade, é um relato de carinho.
Tem coisas que só em Guaramirim. ❤