Por: Ariston Sal Junior | 26/05/2014

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O dia 25 de maio, Dia Nacional da Adoção, tem um significado especial para o designer gráfico Pedro Paulo Adriano, 48 anos, e a secretária Ester Andréia Horst Adriano, 44, de Jaraguá do Sul, no Norte do Estado.

Neste domingo, quando é comemorado o Dia Nacional da Adoção, que eles lembram mais intensamente da chegada da filha Camila Horst Adriano, 4 anos. Foi através dela que eles realizaram o sonho de formar uma família e aprenderam o significado da expressão “amor incondicional”.

Foram quatro anos de espera. Tudo começou em 2006, quando Ester e Pedro se inscreveram no cadastro de adoção em Jaraguá do Sul, onde moravam, e em Rio Negro (PR), onde tinham parentes.

Ester fazia tratamento há seis anos para engravidar por causa de uma endometriose (doença caracterizada pelo aparecimento de pedaços de tecido endometrial fora da parede interna do útero e que pode causar infertilidade) e estava ansiosa para ter um filho.

O que o casal não esperava era que a primeira oportunidade de adoção surgiria logo depois de praticamente perderem a casa na enchente de 2008.

— Ligaram para avisar a gente sobre um menino recém-nascido. Justo quando a água tinha invadido a casa e destruído quase tudo. Estávamos sem condições de cuidar de uma criança naquele momento e recusamos — lembra Ester.

Dois anos depois, em 2010, Ester recebeu uma ligação do Fórum de Rio Negro sobre uma linda menina de 11 meses disponível para a adoção. No mesmo dia em que conheceram Camila, levaram a menina para casa.

Dona de um quarto decorado com desenhos de princesas e de um sorriso contagiante, Camila faz questão de demostrar o quanto ama os pais com muitos beijos nas bochechas.

— Ter um filho adotivo não tem nada de diferente. A gente ama igual — diz Ester, emocionada.

Grupo orienta sobre o processo

Em Jaraguá do Sul, as famílias adotivas podem contar com o Grupo de Apoio à Adoção Bendito Fruto. O objetivo é orientar sobre o processo de adoção e a troca de experiências sobre o relacionamento entre filhos e pais adotivos.

Um dos focos do grupo é incentivar a adoção de crianças com perfis pouco procurados pelos candidatos – mais velhas, acima de oito anos, negras, com deficiência física ou grupos de irmãos.

O secretário do grupo, Valdemar Mannes, explica que nos encontros são debatidos principalmente os motivos que levam os participantes a quererem adotar. Outro ponto que costuma nortear os debates é sobre como lidar com os filhos adotivos.

Segundo ele, muitos pais têm dificuldade em se relacionar com a criança por não entenderem a história que ela carrega em virtude da convivência com a família de origem.

Mannes, que também é pai adotivo e já foi conselheiro tutelar, diz que é preciso ter clareza sobre o motivo pelo qual se deseja ser pai e mãe “de coração”. Em 2001, ele adotou Henrique, hoje com 13 anos. No ano seguinte foi a vez de Izadora, agora com 12 anos, fazer parte de uma nova família.

— Adotar é um ato de amor. Algumas pessoas adotam por caridade, e isso é um equívoco — comenta.

Os encontros do Bendito Fruto acontecem uma vez por mês e contam com 14 integrantes voluntários. Os interessados em participar das reuniões podem entrar em contato pelo telefone 8437-3141 ou bendito.fruto@bol.com.br.

“Quanto mais exigências, maior é a espera”

O secretário do Grupo de Apoio Bendito Fruto, Valdemar Mannes, destaca que a disponibilização da criança para a adoção ocorre somente depois que esgotaram-se todas as alternativas de integrá-la à família de origem.

Em Jaraguá do Sul, por exemplo, há muito mais interessados em adotar do que crianças para serem adotadas. Levantamento do setor psicossocial do Fórum aponta que, até 25 de março, havia 11 crianças entre 8 e 16 anos disponíveis para a adoção e 100 pretendentes de Jaraguá e Corupá inscritos para participar do processo.

Os dois abrigos provisórios de Jaraguá do Sul têm 27 crianças a adolescentes de seis meses a 14 anos. Parte delas foi separada da família por decisão da Justiça, mas ainda não está com a situação processual definida.

Portanto, não estão liberados para a adoção e nem sempre serão, pois podem retornar para a convivência familiar.

O promotor da Vara de Infância e Juventude, Rafael Meira Luz, explica que a demora no processo de adoção depende do perfil da criança que se deseja. O primeiro passo para adotar uma criança é procurar o setor psicossocial do Fórum de Jaraguá do Sul para participar do cadastro.

Uma equipe vai avaliar o perfil do interessado, o que inclui visitações e também a participação de um curso de habilitação de adotantes, que dura duas semanas. Depois, o nome vai para uma listagem de adoção nacional e também da comarca. Esse processo de habilitação dura cerca de seis meses.

— Quanto mais exigências, maior é o tempo de espera. O processo de adoção pode demorar seis meses ou até cinco anos — comenta Meira Luz.

Dez casos de adoção irregular em três anos

Nos últimos três anos, a 7ª Promotoria de Justiça, que atende as comarcas de Jaraguá do Sul e Corupá, acompanhou pelo menos dez casos de adoções irregulares. O promotor Rafael Meira Luz comenta que, em algumas situações, as crianças foram afastadas da família e disponibilizadas para adoção. Outras ficaram com os pais adotivos porque já havia vínculos afetivos consolidados e elas dificilmente superariam a separação.

Meira Luz comenta que os casos podem envolver ou não facilidades financeiras, como o pagamento em dinheiro à gestante, viagens, dos exames pré-natais e a alimentação.

O mais comum é quando uma gestante entrega o bebê para um casal que quer adotar, mas o recém-nascido é registrado no nome do pai biológico. Quando a criança está maior e afetivamente ligada à família de criação, os pais adotivos procuram a Justiça para registrá-la em nome deles. Acreditam que dessa forma é mais fácil para regularizar a situação sem que ocorra o afastamento.

Também é comum a simulação de que a criança é fruto de uma traição envolvendo uma mulher solteira e um homem casado. O bebê é registrado no nome da mãe verdadeira e do pai adotivo como se ele fosse o biológico e é levada para a casa dele logo após o nascimento.

A farsa continua quando a esposa do suposto pai entra com o pedido de adoção na Justiça, alegando que perdoou o marido e que quer assumir a criação da criança com ele.

Desde 2011, a 7ª Promotoria intensificou o combate às adoções irregulares com a criação de uma rede de proteção às crianças. A rede conta com a parceria de setores públicos – hospitais, postos de saúde, creches, escolas, órgãos de assistência social, entre outros – que ajudam a identificar e denunciar possíveis casos de desrespeito ao cadastro nacional de adoção.

Via AN