Por: Anderson Kreutzfeldt | 04/02/2014

Viram essa? João Alfredo Dresh, de 68 anos inventou o pequeno carro elétrico (foto abaixo) e chegou até a ser chamado de Henry Ford do Vale do Taquari:

(Foto: Cesar Lopes / Especial / Zero Hora)

(Foto: Cesar Lopes / Especial / Zero Hora)

De longe, parece um carro de criança, daqueles de parque de diversão. De perto, mais ainda. Com pouco mais de um metro de largura e menos de 2 metros de comprimento, o modelo elétrico criado em Lajeado é pequeno mas tem ambição.

À espera de incentivos, João Alfredo Dresch, 68 anos, inventor do veículo e empresário aposentado, pretende transformar sua criação no primeiro da categoria fabricado em escala comercial no país. A ideia surgiu durante uma viagem à Itália, em 2009, ao ver carros elétricos circulando. Dresch aproveitou para visitar fábricas e, mesmo sem conseguir arrancar detalhes sigilosos nem ter formação superior específica, decidiu criar o seu.

– Não tive parâmetro, mas decidi que queria um carro elétrico compacto para uso próprio. Pedi ajuda a um amigo engenheiro e outro mecânico e, em 11 meses e meio, finalizamos – conta Dresch, que foi apelidado de Henry Ford do Vale do Taquari.

Um molde em tamanho real foi feito de papelão, depois todo em madeira. Por último, foi revestido de fibra, para por fim ganhar estrutura de aço.

– Quando ficou pronto, fui entrar no carro e não consegui. A porta tinha ficado pequena. Tivemos de cortar a parte da frente e aumentar o comprimento em uns 15 centímetros – relembra o bem-humorado inventor.

No final de 2010, com investimento total de R$ 40 mil, o modelo estava pronto, pintado em “vermelho tangerina”, segundo descrição e escolha do próprio Dresch. Tinha ganho farolete de moto de baixa cilindrada, espelho de caminhão cortado ao meio e 14 baterias de jet ski, carregáveis em qualquer tomada 110 V ou 220 V. Duas horas conectado na luz rendem duas horas de autonomia nas ruas.

Os bancos foram retirados de uma Meriva capotada, revestidos em couro vermelho e branco com o nome JAD, inicias do criador. Sem maçanetas – o que, segundo Dresch, dificulta furtos –, abre, tranca e fecha os vidros por controle remoto. O JAD tem as vantagens de qualquer carro elétrico: não polui, é isento de IPVA e tem baixo custo de rodagem, cerca de R$ 0,10 por quilômetro. Um popular gasta, em média, três vezes mais com combustível.

– Esse aqui tu estacionas em qualquer lugar, porque ocupa o espaço de uma moto no estacionamento oblíquo e cabem três no lugar de uma vaga de carro tradicional – compara.

Ficha técnica

Tamanho: 1,20 metro de altura, 1,05 metro de largura e 1,95 metro de comprimento
Peso: 295 quilos
Capacidade: duas pessoas
Motor: elétrico, tem rolamento especial de 5 CV
Velocidade máxima: 70km/h
Equipamentos: cinto de segurança, freio a disco nas quatro rodas, extintor de incêndio, freio de mão, estepe e carregador de bateria para tomadas convencionais 110 V ou 220 V
Bateria: 14 baterias de gel, com vida útil de até cinco anos
Autonomia: após duas horas carregando, o carro anda por duas horas
Especificidades: não é automático e não tem marcha, tem apenas freio e acelerador. A ré é acionada por um botão que inverte a polaridade do motor
Custo de rodagem: cerca de R$ 0,10 por quilômetro (valor gasto com energia elétrica)
Valor de venda: estimado entre R$ 15 mil e R$ 18 mil

O dinheiro que faz falta

Só dois anos e meio depois de finalizado e com dois guinchamentos por circular sem documentos, o carro elétrico de Lajeado foi aprovado pelo Detran. As placas JAD-0713 chegaram há poucas semanas. Desde então, já rodou até pelo Litoral Norte, despertando curiosidade.

– Se ganhasse R$ 1 por foto, já dava para pagar o projeto da geração 2 – brinca Dresch.

Estimado em R$ 450 mil, o projeto foi pedido a especialistas em São Paulo, mas parou por falta de recursos. Com o novo sócio, o engenheiro automotivo Marcos Büneker, que trabalhou na Volkswagen e na Mercedes-Benz, Dresch cogita ajuda de investidores privados, mas mira nos governos federal e estadual.

– O governador (Tarso Genro) foi à China e anunciou que traria uma montadora de carros elétricos, mas nós temos dificuldade até para agendar reunião – reclama Büneker.

A Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI) assegura que os inventores foram recebidos e apresentados a “instrumentos de apoio”, como financiamento de bancos públicos e incentivos fiscais. Jayme Buarque de Hollanda, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), confirma que ainda não existe fabricante de carros elétricos neste nicho, apenas de transporte coletivo e de golf.

– Ainda é artesanal, mas daqui a 10 anos será o novo paradigma no transporte – prevê Hollanda.

via Zero Hora