Por: Cláudio Costa | 3 anos atrás

Ao procurar Jaraguá do Sul no Google, uma das primeiras respostas é a da Wikipedia, que descreve a cidade como a quinta maior economia de Santa Catarina e terceiro maior polo industrial do Estado. Mas isso tudo surgiu do empreendedorismo e do pioneirismo de pessoas como Ewaldo Benthien – fundador da Casa Comercial Ewaldo Benthien, que posteriormente se tornaria a Panificadora Benthien, a padaria mais antiga em funcionamento na cidade.

Junto com a sua jovem esposa, Wally Benthien, Ewaldo decidiu abrir uma empresa na rua Angelo Rubini. O empreendimento começou como um açougue que também fazia a venda de produtos diversos em 1955. “Foi muito difícil. Apenas a parte da Pedra Branca era habitada e ninguém tinha dinheiro”, conta Wally. “Os colonos trocavam os animais com a gente pra pagar as contas. Metade da carne de gado ou porco pagava as contas e o resto ficava para as futuras compras”, explica.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Desfile de 7 de Setembro na década de 60. Ao fundo, o prédio que abriga atualmente a Panificadora Benthien. Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

Em uma economia baseada no escambo (troca de produtos sem o uso de moeda) fazer parceiros era fundamental. O comércio tocado por Ewaldo e Wally foi o primeiro cliente de Urbano Franzner – fundador da empresa Urbano Agroindustrial. “Ele trazia o fubá moído que produzia em uma carroça. A gente dava em troca o milho que recebíamos dos colonos”, lembra Wally. A história do casal se confunde com a de tantos outros empreendedores da cidade, que contavam com muito trabalho e um pouco de sorte para seguir adiante.

Ewaldo morreu em 2005, aos 81 anos. Hoje com 83 anos, Wally Benthien é uma senhora gentil, simpática e muito sorridente. Atualmente afastada das atividades da padaria, ela relembra com muita alegria como começou a produzir as delícias que fizeram a fama da Panificadora Benthien em toda a comunidade da Barra do Rio Cerro. “Eu comecei esse trabalho muito nova, aos oito anos. Como não havia nenhum restaurante, a minha mãe produzia doces para os casamentos e eu ajudava na produção”, conta.

Foto: Arquivo Pessoal

Oma Wally (direita) segura um bolo de casamento na década de 70. Foto: Arquivo Pessoal

O comércio foi estabelecido em uma casa ao lado do atual prédio, construído em 1963, que abriga a padaria há aproximadamente dez anos. “Era uma pequena casa feita toda de tijolos à vista”, recorda Wally. Como não havia embalagens à disposição, os clientes levavam as deliciosas cucas nas formas e sem embrulho algum. “Eles devolviam após algum tempo. Como eu era muito caprichosa, sempre lavava todas as formas com muito cuidado. Utilizava cinzas e palitos de bambu”, explica.

O cotidiano era bucólico e a infraestrutura era ínfima. A rua Angelo Rubini era uma estrada de chão. “Quando eu cheguei aqui, em 1953, havia apenas três casas, uma pequena escola e uma igrejinha em cima de uma colina”, relembra Wally Benthien. “O movimento era só de carroças e não havia carros aqui na Barra. Lembro muito daquelas carrocinhas que só tinham um cavalo. Nós levávamos cerca de uma hora e meia para chegar no Centro”, completa.

Wally conta que a Barra do Rio Cerro era uma localidade totalmente rural, muito diferente do bairro urbanizado e densamente povoado que se vê nas primeiras décadas do século 21. “O movimento era pequeno, pois não tinha muita gente aqui. Onde era o Breithaupt, havia uma roça de cana. Nós conhecíamos todas as pessoas que moravam aqui, das famílias Busarello, Rubini, Nicolodelli”, recorda. “Depois chegou uma picape aqui, o único carro que tinha por essas bandas. Hoje há um monte de carros, tantos que até enche o saco”, brinca.

Prédio da família Benthien abriga atualmente a padaria. Foto: Cláudio Costa

Prédio da família Benthien abriga atualmente a padaria. Foto: Cláudio Costa

O movimento não era grande, mas as encomendas do fim de semana sempre davam muito trabalho. “Nós costumávamos vender 100 formas de cuca em um fim de semana. No Natal, eram vendidas 350 formas”, frisa Wally. “Estávamos fazendo as contas e já vendemos aproximadamente 4 milhões de pedaços de cuca”, calcula, ao observar que uma forma de cuca rende seis partes.

Ao todo, oito sabores são fabricados na padaria: queijo, abacaxi, banana, farofa, mamão, morango, amendoim e maçã. A de abacaxi é a mais vendida. Sob o lema: “tradição, qualidade e sabor, atributos que só a experiência pode proporcionar”, a Panificadora Benthien foi administrada por Ewaldo e funciona até hoje.  “Eu gostei muito do meu trabalho. Assei carne, fiz bolos e sempre caprichei muito em tudo o que fiz”, sintetiza Wally.

Em 1982, o comércio virou um pequeno mercado. Em 2003, a loja da família Benthien foi transformada em padaria. A empresa Ewaldo Benthien ME foi uma das homenageadas durante os 130 anos de Jaraguá do Sul. O comércio foi considerado uma das “dez casas comerciais mais antigas e que continuam a contribuir para o crescimento do município”.

Segundo André Pires, administrador do negócio, neto de Wally e Ewaldo Benthien, a padaria recebe clientes que frequentam o local há 50 anos. Como são muitos idosos, a taxa de mortalidade entre os fiéis compradores é alta. “Recebemos muitas ligações informando que nossos clientes morreram quase que semanalmente. Muitas vezes recebemos uma ligação de manhã e uma de tarde”, reforça Pires. “A nona fica se perguntando como tantos vão embora e ela fica aqui”, confidencia, ao revelar que a sua avó tem uma ótima saúde, conquistada após décadas de batalhas.