Por: João Marcos | 2 anos atrás

Segue artigo publicado na Exame

Duas vezes por ano, os membros das três famílias controladoras da catarinense WEG, uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo, escolhem um destino para um encontro. O mais recente aconteceu ao longo de dois dias em dezembro, num hotel no litoral de Santa Catarina. O propósito nada tinha a ver com descanso.

Foto: Germano Luders/ Exame

Foto: Germano Luders/ Exame

Os 25 netos dos três fundadores fizeram um curso de 140 horas elaborado por professores da escola de negócios Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. Nesse período, participaram de atividades como aulas sobre estratégia, liderança e competitividade. Até os bisnetos — o mais velho com 10 anos e o mais novo com apenas 1 — estiveram presentes. Na próxima reunião, prevista para julho, as crianças serão apresentadas a um motor, principal produto da empresa da família.

A atividade será acompanhada por psicólogos, responsáveis por transformar o aprendizado numa brincadeira. O compromisso, mantido de maneira informal desde 1976, ganhou rotinas mais elaboradas com o tempo. Mas serve ao mesmo objetivo: aproximar os acionistas entre si e da empresa. “Os fundadores sempre acreditaram que todos precisavam entender do negócio, independentemente da idade”, diz Décio da Silva, filho de um dos fundadores e presidente do conselho de administração da WEG.

Parte da agenda nesses encontros sempre é reservada para olhar os resultados da empresa. Em dezembro, as famílias viram números recorde. Em 2014, a WEG anunciou um faturamento de 2,7 bilhões de dólares, 42% maior em relação a 2010. A WEG Equipamentos Elétricos, que responde por mais da metade das receitas do grupo, obteve um lucro líquido de 242 milhões de dólares, 52% acima do valor registrado em 2010.

Premiação. Foto: Divulgação WEG

Premiação. Foto: Divulgação WEG

É curioso notar que, em certos aspectos, a WEG, fundada em 1961 pelo eletricista Werner Voigt, o administrador Eggon da Silva e o mecânico Geraldo Werninghaus, mantém traços de uma pequena companhia familiar. Os funda­dores afastaram-se do dia a dia da companhia em 1989. Mas ainda existem episódios folclóricos típicos de uma empresa de dono.

Aos 84 anos, o funda­dor Voigt vira e mexe sai de casa com seu pequeno carro elétrico, com tamanho similar ao de uma empilhadeira, atravessa a cidade e dá um passeio pelos corredores da linha de produção. Também costuma tocar Parabéns pra Você numa gaita na cerimônia de comemora­ção de 25 anos de casa de funcionários. No fim de 2014, apresentou-se diante de 200 veteranos homenageados. Como a sede sempre se manteve em Jaraguá do Sul, cidade de pouco mais de 140 000 habitantes no interior de Santa Catarina, não é raro que parte dos funcionários consiga almoçar em casa.

Werner, Eggon e Geraldo. Foto: Divulgação WEG

Werner, Eggon e Geraldo. Foto: Divulgação WEG

O executivo Harry Schmelzer Junior, presidente da companhia desde 2007, é um deles. A vista de sua janela, em vez do típico vaivém de carros de uma metrópole, é um amplo e bucólico jardim. A poucos metros dali, em contraste, saem algumas das peças mais inovadoras que a companhia produz em suas 35 fábricas espalhadas em 11 países. Na linha de produção original, atualmente com mais de 360 000 metros quadrados de área construída, são finalizados milhares de motores de alta tecnologia que serão o coração de geradores de energia eólica, lavadoras de roupa e máquinas industriais em 100 países.

A WEG é uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo — atualmente, detém 14% desse segmento no mercado americano. As principais concorrentes globais são a alemã Siemens, a suíça ABB e a francesa Schneider Electric. O futuro da WEG depende cada vez menos de suas raízes. As operações estrangeiras, presentes em 80 países, respondem por 51% do faturamento.

Há cinco anos representavam 38%. O avanço deve-se a uma série de aquisições no exterior em­preendidas com disciplina financeira. Tem se tornado cada vez mais raro encontrar Schmelzer Junior em seu escritório na sede. Só no primeiro semestre deste ano, ele passou dois meses fora do ­país. “A empresa mostra, ano a ano, a capacidade de crescer e manter a operação enxuta”, diz Mário Bernardes Júnior, analista do mercado de bens de capital do Banco do Brasil.

Sede da WEG em Jaraguá do Sul. Foto: Divulgação WEG

Sede da WEG em Jaraguá do Sul. Foto: Divulgação WEG

Até 2020, a meta é faturar 20 bilhões de reais, sendo 60% vindos de fora do Brasil. Com esses resultados, as ações seguiram na contramão de um ano ruim para a bolsa. Com valor de mercado em torno de 30 bilhões de reais, a empresa viu seus papéis valorizar 31% em 2014 — enquanto o Ibovespa caiu 3%. O conjunto desse desempenho levou a WEG a ser a Empresa do Ano de MELHORES E MAIORES 2015.
À primeira vista, muitos aspectos da origem da WEG poderiam fazer tamanha ascensão parecer improvável.

Os três fundadores, que cresceram em Jaraguá do Sul, conheceram-se quase por acaso. Nenhum deles tinha formação acadêmica. Eggon não completou nem o equivalente à 6a série do ensino fundamental. Começou a trabalhar aos 13 anos num cartório da cidade. No fim dos anos 50, ergueu uma pequena firma de canos de escape para veículos.

Certa vez, levou seu carro para consertar na oficina mecânica que Geraldo Werninghaus mantinha na cidade. Dessa interação, surgiram uma amizade e a ideia de produzir motores para máquinas industriais. Werner Ricardo Voigt, que começara muito jovem como autodidata em instalações elétricas, entrou para a sociedade. Cada sócio investiu no negócio o valor suficiente para adquirir um Fusca. Desde o início, os três definiram suas atribuições na empresa.

Enquanto Eggon se manteve à frente da operação e construiu sua imagem da porta para fora, os outros dois mantiveram o olhar para a área técnica e para a linha de produção. Havia espaço para crescer na esteira de uma indústria que ganhava corpo no país ao fornecer motores para máquinas a preços competitivos localmente.

Os três fundadores, porém, logo concluí­ram que teriam de ampliar os horizontes para sobreviver. Numa visita à Alemanha em 1970, perceberam que só existiam dois tipos de empresa nesse segmento: as grandes e dominantes; e as nanicas, fadadas a desaparecer. Para ampliar a chance de fazer parte do primeiro grupo, decidiram que seria preciso exportar. Não só para incrementar a receita mas para forçar o desenvolvimento de produtos competitivos globalmente. O primeiro embarque de motores, para o Uruguai, ocorreu no mesmo ano, quando a empresa tinha menos de uma década de existência.

Continua.