Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

Há uns quatro anos, apareceu um novo companheiro de trabalho no escritório e fui nomeado o seu “orientador”. Certa feita, ele levou pra casa um exemplar do meu livro “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”, pois sua noiva era uma leitora voraz (quando terminou de ler os três 50 tons, levou-os pra praia para relê-los).

Numa tarde ela ligou para a empresa, eu atendi a chamada e passei para o noivo dela:
– Oi amor!
– Oi Flávio, tudo bem?
– Tudo bem, querida.
– Oh! Esse aí que atendeu foi o Lamas? O escritor?
– Claro que sim, só tem um Lamas que trabalha aqui!
– Ah! Estranhei a voz dele.
– Tu já tinhas falado com ele antes?
– Não, né Flávio! Tu não me apresentasses pra ele. Mas eu imaginava a voz dele diferente.
E eu e o Flávio rimos algumas vezes sobre essa situação da guria ter criado uma voz imaginária para mim.

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Já ouvi dizerem que qualquer um de nós está a três contatos do resto do mundo no Facebook. Outro dia, uma leitora me adicionou. Ela percebeu que tínhamos uma amiga em comum:
– Você conhece o Lamas, o escritor?
– Siiiim. Há muito tempo. Ele é nosso amigo pessoal. Fomos em todos os lançamentos dele. Ele vai na nossa casa. Queres que eu te apresente?
– Não! Morreria de vergonha! Eu até conheço ele, mas só pelas histórias. Até tenho os livros autografados, mas ganhei de presente. Posso te fazer uma pergunta…

A leitora poderia questionar sua amiga sobre qualquer coisa a meu respeito: se meus personagens eram “reais de verdade”, se os nomes eram fictícios, se já fui mesmo ameaçado de morte por uns e outros leitores(?), se sou destro, se meus óculos são apenas para fazer grau e para ficar com ar intelectual…mas NÃO, ela queria saber como era a minha voz, se tinha sotaque do sul, se era engraçada…

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Essas duas passagens comprovam a tese do velho Quintana: o livro é o único instrumento que permite ao leitor estar só e ao mesmo tempo acompanhado. É possível que em algum momento a minha literatura tenha feito companhia para alguém e assim a minha voz teria sido imaginada. E essa é uma bela motivação para continuar escrevendo.
A propósito: o meu sonho de infância era ser locutor de rádio. Até participei de concurso numa emissora. Mas não era de locução. Era de frases acerca do Dia dos Pais. E o meu velho levou pra casa um relógio de pulso da Tupanci AM.
Marcelo Lamas, autor de “Arrumadinhas” e de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com