Por: Sistema Por Acaso | 20/07/2016

Muito mais do que um delicioso achocolatado – consumido desde o início dos anos 1960 -, o Choco Leite é uma tradição “catarina” e orgulho jaraguaense. Unanimidade inconteste, poucas empresas podem ostentar com orgulho esta fama que atravessa gerações e segue na incansável busca de se reinventar, sem perder a essência que a consagrou.

Arthur Gumz foi quem começou toda esta história, quando deu início em 1913, no bairro Rio Cerro II, um pequeno comércio, onde o escambo era basicamente a prática da época. Pouco depois, em 1927, ao perceber que poderia trabalhar com o leite produzido na região, iniciou os trabalhos em uma pequena fábrica de laticínios, como manteiga e queijos, e batizou a marca de “Sant’Ana”, uma singela homenagem à mãe.

coleta_leite

Registro de como era feita a coleta de leite na década de 80. Foto: acervo histórico Gumz

caminhão_santanna

Um dos característicos caminhões de entrega da empresa Gumz Irmãos SA. Foto: acervo histórico Gumz

Porém, em 1960, Arthur resolveu adicionar chocolate e outros ingredientes, guardados a sete chaves, depois de observar com curiosidade um produto similar em Curitiba, numa de suas muitas visitas onde levava produtos da região para serem comercializados na capital paranaense. Estava criado o Choco Leite.

envazamento_chocoleite

Envazamento das famosas garrafinhas. Foto: acervo histórico Gumz

E foi para resgatar essa história bacana que o Por Acaso esteve no QG da Choco Leite, e bateu um papo com Guilherme Gumz Utech, neto de Arthur, responsável por esse ícone catarinense. Guilherme nos recebeu na fábrica onde a bebida nasceu e é produzida até hoje, com exclusividade. Quem já foi de Jaraguá do Sul até Pomerode pela serra certamente já deve ter reparado no local, cuja presença marca um pequeno centro comercial ao caminho. O bate-papo começou às 14h, foi pela tarde adentro e rendeu uma coletânea com diversas curiosidades…

Foto por satélite e fachada da fábrica - Google, 2013

Foto por satélite da propriedade e fachada da fábrica – Google, 2013. Clique na imagem para acesso ao mapa.

Você sabia que:

– Em 1983, após o falecimento de Sr. Arthur Gumz, a empresa passou aos cuidados do genro, Lirio Utech. “Meu pai tocou o negócio com a minha avó, até 1996, quando a empresa foi então vendida, no auge, por uma decisão da família toda”, disse Guilherme.

– Nessa época, o laticínio Gumz produzia leite, queijos, nata e, claro, o Choco Leite. A fábrica empregava 350 pessoas.

– Esperteza garantia nova clientela: uma das estratégias da família Gumz para levar Choco Leite a novos mercados era a venda casada. Por exemplo, na década de 90 os paulistas só puderam saborear essa delícia porque caso algum lojista quisesse comprar queijo catarinense da família, deveria pegar algumas garrafinhas de achocolatado junto. Mal sabiam eles o que estavam perdendo. 🙂

Degustação de Choco Leite em supermercado, pela década de 80. Foto: acervo histórico Gumz

Degustação de Choco Leite em supermercado, pela década de 80. Foto: acervo histórico Gumz

– No ano de 1996 a fábrica foi vendida para a Glória, então pertencente à Fleischmann/Royal – que virou Nabisco e depois foi comprada pela Kraft Foods. Esta, por sua vez, vendeu a fábrica para a Parmalat, que por fim ofereceu-a novamente aos Gumz. Mais uma vez então a família reuniu-se para discutir o negócio, e optou pelo resgate.

embalagens_antigas_chocoleite02

As novas embalagens apresentadas pela Glória, logo após a aquisição. Foto: acervo histórico Gumz

– Ao comprar novamente a empresa, em 2002, a família Gumz salvou a mesma da falência. Na ocasião, a fábrica produzia apenas Choco Leite, e dos 350 funcionários, restavam 45.

embalamento_leite_santanna_gumz

Leite Sant’Anna, um dos produtos que foi descontinuado. Foto: acervo histórico Gumz

– Hoje, como sócios, cuidam da Choco Leite o Sr. Lirio Utech, seus filhos Guilherme e Elisabeth, e Sr. Hamilton Utpadel, amigo da família e antigo funcionário de confiança da empresa.

Sr. Lírio Utech. Foto: acervo histórico Gumz

Sr. Lírio Utech. Foto: acervo histórico Gumz

– No retorno aos negócios, uma situação difícil. Dos cerca de 10 concorrentes que o Choco Leite tinha entre os anos 1980 e 1990, agora havia 400 no mercado. Uma das estratégias definidas então para continuar nas prateleiras foi tornar o preço da bebida mais competitivo, e para tal era necessária uma mudança nos ingredientes. Um pequeno lote foi então produzido a título de testes com esta nova receita, e as reclamações recebidas foram tantas que os sócios chegaram à conclusão de nunca mais considerar a ideia.

– Choco Leite em garrafinha já chegou a ser distribuído até São Paulo. Hoje, devido às mudanças ocorridas na administração da empresa e dificuldades com a logística, os catarinenses podem contar ela como sendo um produto exclusivo de se território.

garrafa_chocoleite

O Choco Leite é nosso!

– Por falar na garrafinha, há mais de um milhão delas por ai. Se procurar bem, você pode acabar encontrando garrafas com mais de 10 anos de idade ainda em uso. Guilherme nos contou que algumas tem até 15 anos de circulação.

– Distribuição restrita: é apenas dentro de um raio de até 400km de Jaraguá do Sul que você vai encontrar Choco Leite garrafinha.

– Uma rápida pesquisa no Mercado Livre mostra o valor da nostalgia: há engradados vazios de Choco Leite sendo vendidos a R$ 250,00. Garrafas são oferecidas a partir de R$ 15,00 a unidade.

engradado

O valor da nostalgia. Clique na imagem para acesso.

– Plástico VS garrafa: é fato reconhecido até pelo fabricante, o Choco Leite é muito mais gostoso em sua embalagem original. Guilherme nos disse que já fizeram diversos estudos, mas são tantas as variáveis, que não há o que possa ser feito para tornar o sabor exatamente igual.

embalagens_antigas_chocoleite

Uma das antigas gerações de embalagens da linha Choco Leite. Foto: acervo histórico Gumz

– Falando em sabor, Guilherme contou da relíquia da família: seu pai tem até hoje (e guardado a sete chaves) o pedaço de papel original onde se encontra, escrita à mão pelo avô, a receita do Choco Leite.

– Hoje você encontra Choco Leite em garrafinha, em pet de 850, 500 e 300 ml, Choco Leite em pó solúvel e até versão premium.

chocoleite_premium

Imagem: divulgação

– Marca da saudade: o SAC Choco Leite recebe com certa frequência contatos de pessoas de São Paulo e até outras localidades do país onde o produto nunca foi distribuído (como Brasília, por exemplo), perguntando quando é que a bebida vai chegar ou voltar para lá.

Guilherme mostra que inclusive via WhatsApp recebe referências, usos e homenagens que são feitas ao produto

Guilherme mostra que também recebe pessoalmente referências, usos e homenagens que são feitas ao produto. Foto: Sal Ariston Jr.

– O picolé e sorvete de Choco Leite nasceram por acaso, numa reunião com a Paviloche que ia debater o fornecimento de leite condensado entre as empresas. Sucesso com o público, o produto chegou a liderar as vendas com apenas quatro meses no mercado.

Chocoleite-2

Imagem: divulgação

– A produção de Choco Leite não é medida em litros, mas em quilos, com uma média de 330 toneladas/mês.

Nostalgia e futuro

guilherme_gumz

Guilherme Gumz Utech, sócio-diretor da empresa. Foto: Sal Ariston Jr.

Nós sabemos fazer Choco Leite. Temos outros produtos como queijo, creme de leite em lata, achocolatado em pó, porém é o Choco Leite que é o carro-chefe”, destacou Guilherme Utech. Com os mercados do Paraná e do Rio Grande do Sul sendo os próximos objetivos a serem conquistados, o empresário jaraguaense ainda coloca: “E como o céu é o limite, quem sabe a região Sudeste receba Choco Leite, como já aconteceu no auge da empresa, nos início dos anos 1990”.

Hoje, Choco Leite é o segundo achocolatado líquido mais consumido em Santa Catarina, e independente o que ainda está por vir, uma coisa pode ser dita por nós: o melhor achocolatado do Brasil (e por que não do mundo?) é um produto totalmente made in Jaraguá do Sul.


Artigo pelo jornalista convidado Sal Ariston Júnior.
Edição: Ricardo Daniel Treis.

Imagem de capa: Sr. Lírio Utech e diversas gerações de produtos Choco Leite.