Por: Raphael Rocha Lopes | 6 anos atrás

Morreu Hugo Rafael Chávez Frías, presidente da Venezuela, meio ditador, meio maluco (se é que isso não é uma redundância), e que provocava constantemente a ira dos Estados Unidos. Falava demais e não poucas vezes deixou de ficar calado na hora certa. Foi alvo da indignação, também, do Rei da Espanha (“Por que não te calas?”). Morreu, foi-se embora, e provavelmente não foi para Pasárgada.

Falaram e falam muito mal dele ao longo de seus quase 14 anos no poder venezuelano e na mídia internacional e agora possivelmente embalsamado. Entretanto, reduziu consideravelmente a pobreza em seu país, dizem as estatísticas.

E, mais importante, e que me fez escrever um pouco sobre ele hoje: manteve “El Sistema”, um programa de música para crianças e adolescentes reconhecido mundialmente e copiado em várias parte do globo. Repetindo o que já escrevi por aqui outro dia: uma “fabulosa usina que já produziu centenas de orquestras infantojuvenis e adultas”. Com “El Sistema” crianças do país inteiro são introduzidas na magia das músicas folclóricas e clássicas. Bebês de colo até dois anos, para começar, são reunidas com suas mães duas vezes por semana para cantar canções folclóricas da Venezuela. O nome das turmas? “Orquestra Baby Vivaldi”. Aos três anos as crianças vão a núcleos conhecer os grandes compositores eruditos. A ideia é que quando cresçam e escutem novamente estes mestres, sintam-os como velhos conhecidos.

É uma luz no fim do túnel. Quem sabe consigamos implantar algo parecido por aqui, sendo que deve ser considerado e valorizado o belo trabalho que a Scar já faz com crianças e adolescentes com gosto e jeito musical e sem as condições financeiras necessárias. A revolução vem pela educação, sim, mas a trilha sonora não é menos importante.

Daqui parto para um trecho de um texto de Sigmund Freud (Três ensaios sobre a teoria da sexualidade) que li numa nota do livro “A loucura das palavras na psicose”, de Walker Douglas Pincerati, lançado neste sábado em livraria da cidade:

– Titia, diga-me alguma coisa, estou com medo porque está muito escuro.
– O que isso adiantaria, já que você não me pode ver?
– Não faz mal: quando alguém fala, fica claro.

As luzes se acendem e as portas se abrem…