Por: Ricardo Daniel Treis | 12/11/2010

Do livro “Como me tornei estúpido”, obra de Martin Page, vai abaixo um trecho que começa na página 57, donde o protagonista está a discursar sobre a consciência de sua condição. É uma conclusão simples, uma hipótese sem embasamento científico, mas que eu, CDF por boa parte da vida, tive sensibilidade pra reconhecer uma verossimilhança. Olha bem:

A inteligência é um erro da evolução. No tempo dos primeiros homens pré-históricos, posso imaginar perfeitamente bem, no seio de uma pequena tribo, todos os meninos correndo no mato, perseguindo os lagartos, colhendo bagas para o jantar; e pouco a pouco, em contato com adultos, aprendendo a ser homens e mulheres completos: caçadores, coletores, pescadores, curtidores… Mas, olhando mais atentamente a vida desta tribo, percebe-se que algumas crianças não participam das atividades do grupo: elas permanecem perto do fogo, protegidas no interior da caverna. Elas jamais saberiam se defender dos tigres de dentes-de-sabre, nem poderiam caçar; entregues a si mesmas, não sobreviveriam por uma noite. Se elas passam os dias sem fazer nada, tal não se dá por indolência, não, elas bem que gostariam de dar cambalhotas com os companheiros, mas não o podem. Ao pô-las no mundo, a natureza manquejou. Nesta tribo, há uma pequena cega, um rapaz coxo, um rapaz desajeitado e distraído… Assim, eles permanecem no acampamento o dia todo, e, como não têm nada para fazer e como os videogames ainda não tinham sido inventados, são obrigados a refletir e a deixar deambular os seus pensamentos. E passam o tempo a pensar, a imaginar histórias e invenções. Eis como nasceu a civilização: porque crianças com defeitos não tinham nada mais para fazer.

Bom, né? Até faz todo sentido. Se pensar, não fossem esses “excluídos”, hoje ainda estaríamos contentes catando raízes em contrapartida nossas insatisfatórias 186 opções de canais de televisão…

Agora se ignorância é bênção, teríamos, neste caso, sido todos mais felizes caso a natureza não estropiasse ninguém? 


Com agradecimentos ao mestre Karlan Muniz pela indicação do livro.