Por: Sistema Por Acaso | 5 anos atrás

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de casal na parede.

Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.

Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.

Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.

Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.

Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.

Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”.

Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com