Por: Max Pires | 21/06/2010

A Câmara de Jaraguá do Sul vai enviar um ofício ao diretor geral do Hospital São José, Maurício Souto Maior, convidando o mesmo para que compareça ainda na próxima semana a uma sessão e use a tribuna por um tempo de no máximo 15 minutos, para que possa explicar à população os motivos que levaram a instituição filantrópica a decidir romper o contrato vigente até 2012 com a Associação Jaraguaense dos Deficientes Físicos (Ajadefi), sem pagamento de indenização.

A decisão de convidar o diretor para conversar com os vereadores foi solicitada pelo presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Saúde e Assistência Social, José Ozorio de Avila (DEM), para debater o assunto. A Câmara já havia convidado o diretor para uma conversa na comissão onde também compareceria o presidente da Ajadefi, Valdecir Titon. Porém, no dia quem compareceu foi a pessoa que, segundo foi apurado, seria a mentora da situação – o presidente do conselho deliberativo do hospital, o advogado Paulo Mattos -, que se negou a dialogar com os vereadores na frente de Titon e ainda pediu que o conteúdo da reunião não fosse divulgado.

José Ozorio disse que ficou muito decepcionado ao ouvir as palavras de Paulo Mattos. “Ele foi muito infeliz nas colocações em torno da Ajadefi e pediu sigilo sobre as palavras que falou na reunião, mas entendo que a Ajadefi merece o respeito e a consideração de todos nós”.

Segundo Paulo teria dito na comissão, mesmo que o serviço fosse repassado a uma instituição, já que ele alega que precisa de maior profissionalização e modernos equipamentos que a associação não tem condições de adquirir, os atendentes não seriam destituídos, mas não é o que está se verificando. “São pessoas que trabalham com dificuldade. Muitos que não tem deficiência física estão por aí roubando e matando, e eles estão trabalhando para ter seu ganho e o sustento da família. Que o Mauricio Souto Maior venha a tribuna explicar à comunidade o que eles estão fazendo com a Ajadefi em Jaraguá do Sul”, apelou.

O drama que vivem diretamente os 16 associados da Ajadefi que saíram do ostracismo há cerca de 14 anos para trabalharem no estacionamento do hospital pode ser observado pelo vereador Francisco Alves (PT) no abraço simbólico realizado em torno da guarita na tarde de quinta, quando cansado de tentar negociar sem que o hospital cedesse, o presidente da entidade chegou a se comprometer em deixar o local na noite de domingo.

Francisco levou o caso para ser debatido na sessão da Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul da última quinta-feira, lembrando que o contrato está em vigor até 12 de julho de 2012. Para ele, a decisão unilateral, que está sendo atribuída principalmente ao presidente do conselho, o advogado Paulo Mattos, é a aplicação da política de exclusão, uma prática condenável quando se prega justamente a inclusão. “É inconcebível vermos os portadores de necessidades especiais sendo tratados desta forma, ainda mais que há um contrato que iniciou em 13 de julho de 2006 e vai até 12 de julho de 2012”.

“Queremos uma resposta para que as pessoas possam garantir o seu ganha pão. Vamos valorizar a política de inclusão”, apelou Francisco. Na segunda-feira, o vereador e seu colega de bancada, Justino Pereira da Luz, se reuniram na Câmara com o presidente da Ajadefi e a deputada estadual Ana Paula Lima (PT), onde pediram que a deputada intercedesse junto a Assembleia Legislativa em favor dos deficientes físicos jaraguaenses, que além de todos os problemas de saúde e preconceito que já enfrentam, agora estão sendo discriminados por uma entidade que é filantrópica e é administrada por uma congregação religiosa, no caso a Congregação da Divina Providência.

A deputada ficou de conversar com o secretário de Saúde do Estado e com a direção da congregação religiosa, na Capital, já que o hospital recebe recursos estaduais também, assim como municipais e federais, na tentativa de sensibilizá-los do drama que os deficientes físicos estão vivendo. “Eles não querem esmola. Querem trabalhar e ter dignidade”, enfatizou Ana Paula.

PRÁTICA DA EXCLUSÃO E DISCRIMINAÇÃO DEIXA VEREADORES PREOCUPADOS

O vice-presidente da Câmara, vereador Lorival Demathê (PMDB), que também já havia levantado o assunto no início do mês de março e na tarde de quinta-feira acompanhou o clima tenso na entrada do hospital, também voltou a lamentar a situação. “Isso entristece demais, a Ajadefi cobra R$ 1,00 e eles são flexíveis quando alguém entra por um minuto para deixar alguém, o que não deve acontecer com a nova administração do estacionamento”.

Ele também alertou que se o espaço for terceirizado, como o hospital chegou a anunciar que seria para uma empresa de Curitiba, ou mesmo se a administração for própria, o preço vai aumentar para pelo menos R$ 2,50, e questiona se os governos e as empresas já trabalham com inclusão e são obrigadas a destinar vagas para deficientes em seus quadros, porque o hospital não pode fazer sua parte social com o pessoal da Ajadefi?

Lorival lamentou ainda a campanha contra a Ajadefi feita pela administração do hospital, que na quinta-feira começou a distribuir panfletos para os usuários dizendo que estava liberando o estacionamento e que os motoristas não deveriam pagar para a associação, dando a falsa ilusão de que futuramente o estacionamento será liberado. “Temos que ser solidários a eles e no que pudermos ajudar faremos”, reiterou.

A presidente da Câmara, vereadora Natália Lúcia Petry (PSB), não quis discutir o mérito da situação. Para ela, a discussão que deveria ser feita é para que não haja uma guarita antes do pronto-socorro. “É muito complicada a chegada ao hospital, a pessoa passa por uns quatro semáforos e ainda precisa parar ali para pegar cartão em um momento em que segundos podem salvar uma vida”, reflete.

A vereadora sugere que o novo estudo para outra forma de controle do estacionamento facilite a vida de quem vai chegar ao hospital. “Nada contra a Ajadefi, nem contra os encaminhamentos de gestão”, disse. Porém, se confirmada a intenção de maior rigidez no acesso ao hospital, a situação deve é ficar mais complicada, pois há informações de que mesmo funcionários e médicos terão que pagar para estacionar no local.

Também solidário com a Ajadefi, o vereador Jaime Negherbon (PMDB) disse que não concorda que explore este espaço. Para ele, deveria se deixar a comunidade ter acesso livre, pois quem vai a um hospital já tem outras preocupações. Jaime sugere que a Prefeitura e a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) avaliem a possibilidade de entregar para a associação a administração do Cartão Jaraguá. “Tudo dentro da legalidade”, ressaltou.

Por enquanto, o único alento para a associação é o anúncio de que em caso de privatização do estacionamento da Igreja Matriz São Sebastião, a Ajadefi terá prioridade.

COMISSÃO TOMARÁ FRENTE DA NEGOCIAÇÃO

Também foi criada uma comissão que será responsável pela retomada das negociações com a direção do Hospital e Maternidade São José, de modo a garantir a manutenção do contrato de locação dos espaços para estacionamento de veículos na instituição. A comissão é formada pelos diretores da Ajadefi, Afonso José Petry, Sebastião Osmarino e Valdecir Titon, e ainda pelos assessores jurídicos da Ajadefi, advogado Alcides Cardoso, e do Centro dos Direitos Humanos (CDH), Airton Sudbrack, os vereadores do PT, Francisco Alves e Justino Pereira da Luz, e pelo ex-prefeito de Guaramirim Evaldo João Junkes. Outros vereadores que apóiam a entidade também serão convidados a integrarem o grupo.

“Nosso objetivo é fazer respeitar o contrato em vigor”, adianta o advogado Alcides Cardoso, que encaminhou uma notificação ao hospital, em 10 de junho, “certificando que não iríamos deixar o estacionamento”. Segundo Cardoso, a direção do hospital emitiu uma contra-notificação, argumentando que a associação está inadimplente com o pagamento de R$ 1.100,00 mensais, desde 2007, o que, segundo ele, não procede.

O advogado reconhece que ainda não foram repassados os valores referentes aos meses de janeiro a junho de 2010. No dia de hoje, ele deve receber da assessoria contábil da Ajadefi três informações: o montante exato da dívida da associação com o hospital, o faturamento mensal da entidade com a exploração do estacionamento e o número de associados que trabalham no local.

O presidente da Ajadefi, Valdecir Titon, que assumiu o cargo há dois anos, mostra-se extremamente preocupado com a situação e nesta sexta-feira teria passado mal diante da tensão a que está submetido. “Essa dívida que eles alegam simplesmente não existe, estamos recebendo bilhetes em que nos humilham, querem nos forçar a abrir mão do contrato”, reclama Valdecir.

O estacionamento gera uma receita mensal em torno de R$ 20 e R$ 25 mil para a associação, que tem 16 funcionários no estacionamento, revezando-se em turnos de seis horas, com atendimento 24 horas por dia. “Nossa visão é de ajudar os deficientes, temos muita gente com filhos para sustentar”, explica Valdecir. A Ajadefi tem hoje 550 associados na microrregião, exceto Guaramirim (onde já existe uma entidade de defesa dos deficientes).