Por: Ricardo Daniel Treis | 2 anos atrás

– Marcamos a reunião para amanhã?
– Ótimo!
– Ok então, te pego meio-dia e almoçamos todos juntos.
– Mas e a reunião?
– Meio-dia. ‘TejE pronto.

….

Mas que diabos de mania. Vamos fazer negócios? Eu adoro fazer negócios. Um negócio aqui, outro negócio ali. Qualquer negócio é comigo, mas tell me, que idéia é essa de fazer reunião-almoço? Ou uma coisa, ou outra! Ou você negocia ou come uma dobradinha. Premeditadamente foge-se àquele princípio fundamental de etiqueta à mesa que sua mãe tanto bradava ao jantar: “Não fala de boca cheia!”.

Que coisa feia… Um hábito cultivado durante tanto tempo agora tende a ser destruído por homens de negócio. Tempo é dinheiro, eu sei, mas não acho nem um pouquinho legal você apresentar sua proposta de selvisso com um brócole entre os incisivos ou uma ponta de fângo no canto da boca.
– Ah, eis aqui então o contrato Sêo W.W! Espera, deixe eu bater essa farofa de cima dele antes…

E outra: para o que você vai dar mais importância? Para a batata-frita que está acabando no buffet ou para o cara à sua frente falando as habituais piadas de negócio? Almoços-reunião invariavelmente terminam em fome, visto que certamente você não comeria como um estivador na frente de seu mais novo contratante.

Mas em verdade, em verdade vos digo: não é a reunião em si que conta, e sim, a cena. Que barato aquele filme onde os caras tomam um martíni, comem um camarão e saem cada um com uma pasta cheia de dólarrr ou diamante. Todo mundo viu e quer fazer igual um dia, se sentir tão bonzão quanto Harrison Ford ou George Clooney. Esquece-se porém, é que aqui é como acontece mesmo, a vida real, e que por uma misteriosa espécie de etiqueta as pessoas dificilmente te avisam daquele feijão preso no canino (contratos em almoços devem ser fechados sem sorrisos). Na vida real todo mundo tem que voltar pro escritório à uma e meia, e não fugir pro litoral com a Julia Roberts. Na vida real ao invés de diamantes, você foi negociar uma carrada de barro ou sei lá quantos pedreiros vão trabalhar na obra. Aqui não tem bistrô francês, só churrascaria e buffet livre. Não há glamour algum em reunião-almoço-classe-mediano-brasileiro.

Mas é sempre assim, todo mundo cai no conto da TV… É que nem aquele esquema de levantar de manhã e dar um beijo dos longos na acompanhante. A realidade me mostrou que , independente ser a mulher dos meus sonhos, todo mundo acorda descabelado e com bafo-de-onça. E ainda dentro da premissa que TV é baboseira, já alerto aos futuros businessman: reunião-almoço dá em tudo, mas dificilmente termina em negócio ou almoço.

Terminado o pudim, o pessoal se levanta e inconclusivamente vai embora, cansado pela costela com maionese que botou abaixo.
– Ei, e agora?
– Ah, passa lá mais tarde pra gente finalizar isso.

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Por Ricardo Daniel Treis, que com cliente só toma cafezinho.
Publicado no Jornal Correio do Povo, à 20 de abril de 2006.